7 de março de 2018

Texto de Wenceslau Ávila

CLUBE DOS 70! Nunca dancei no Clube dos 70! Mesmo assim, esse nome ou expressão me fará sempre “levantar as orelhas”, no caso se as minhas fossem móveis como as do meu saudoso “Campainha”, um cavalinh

Texto de Wenceslau Ávila

CLUBE DOS 70!

Nunca dancei no Clube dos 70! Mesmo assim, esse nome ou expressão me fará sempre “levantar as orelhas”, no caso se as minhas fossem móveis como as do meu saudoso “Campainha”, um cavalinho branco que tinha mania de olhar com as orelhas, dobrando-as pra frente quando precisa enxergar longe.

O Clube dos 70 povoava a minha cabecinha, de quase adolescente, como um lugar impossível de se atingir, um pouco como o fantasioso jardim de Alice, no país das maravilhas. Só que diferentemente da Alice, eu nunca entrei naquele lugar misterioso e secreto: o Clube dos 70, do Guapé antigo. Considero uma obra de arte o piso do Clube dos 70 do Guapé novo, mas no todo, a magia ficava pelo antigo.

O século passado nem tinha entrado na sua segunda metade quando, vindo dos “Rodrigues*” diretamente para a rua 3 de Fevereiro em Guapé, ali, do ladinho do Clube dos 70, que ficava de frente para a praça Raul Soares, quando eu só passava, curioso ao lado daquele prédio cinza, quase sem janelas e com uma única porta na frente.

Durante o dia era um lugar normal, como a farmácia do Otavio ali perto ou mesmo a coletoria, ao lado da minha casa, mas aos sábados, todos os sábados, ali criava vida. Com 9 ou 10 anos de idade, sem televisão, sem saber pra que servia um jornal (não, nem para aquilo!) ou até mesmo rádio, o que pode existir na cabeça de um “roceirinho”, vindo das bandas da Jacutinga? – Nada.

Com a cabeça no travesseiro, quando a noite avançava, apenas aquele som surdo, aquela batida que vazava pelos basculantes do clube. Não se ouviam vozes, nem mesmo música, apenas aquela batida surda, provavelmente um violoncelo marcando o ritmo daquilo que muito tempo depois vim a saber que se tratava de uma valsa.

Até que um dia, ou melhor uma noite, me atrasei na volta pra casa, já bem avançada, resolvi parar debaixo do basculante da única janela que dava para a 3 de fevereiro. Quase no escuro, das ruas de Guapé, iluminadas apenas pelas poucas lâmpadas vermelhas da energia que vinha da usina do paredão isto quando a barragem não estava estourada.

Olho pra cima, em direção à saída pra Ilicinia, ninguém. Pra baixo, em direção à praça, também ninguém. Um pouco inseguro e c..(morrendo) de medo – assombrações sempre me atazanaram a infância, acabei parando debaixo do basculante, embalado por aquele som exótico de piano e, aí sim, os compassos nítidos e fortes daquilo que de longe só marcava o ritmo. Na minha mente vazia os personagens iam preenchendo os espaços como se observasse o filme de alguém pintando um quadro em ritmo acelerado. Sentia até as passadas dos dançarinos, principalmente quando se aproximavam do basculante acima de minha cabeça. Depois vieram vozes, risos no meio da musica.

Tudo aquilo parecia-me algo encantado ou até mesmo coisa do outro mundo, já que pra mim não existiam referencias. Sentia uma estrondosa alegria, ali, poucos centímetros do outro lado da parede e como nada via, comecei a imaginar. Imaginar o quê? –Nada, pois não podia ter a menor ideia do que estaria acontecendo do outro lado – um misto de medo, angústia ou seria euforia? Senti vontade de atravessar a parede e ver tudo aqui, mas sem que me vissem pois jamais ousaria chegar ali. Nem na igreja, nem em família, nem mesmo na escola existiam tantas vozes, risadas e movimentos. Parecia até que a movimentação ia além do clube, não cabia nele, então deveria ultrapassar a casa da Iolanda do outro lado e talvez chegar até a casa do Pe. João. Será? Até o Pe. João não. Ele era muito bravo pra participar daquilo: tantos moços e tantas moças rindo, dançando mais animados que os leiloeiros da Jacutinga no dia 15 de agosto!

Por um bom tempo aquela “experiência” intensa ficou guardada na minha cabeça. Diferente do Pequeno Príncipe do Saint-Exupéry eu não tinha uma raposa para fazer as minhas perguntas mais inusitadas. Comunicava-me com o mundo apenas pela audição: vozes, sons, musicas e uma espécie de onda gigante trazendo um turbilhão de coisas estranhas que estavam começando a me amedrontar – o que eu, somente eu, estava fazendo ali?

Felizmente não era um pesadelo pois em um salto, atravessei a rua e pouco acima entrei na minha casa, onde todos dormiam. Fui então continuar as minhas reinações com a cabeça no travesseiro de marcela, que minha mãe ia buscar longe e sobre um colchão de palha de milho com uma fenda no meio, que ela sempre revolvia pra ficar mais macio e assim acolher com conforto nossos corpos esguios ou se preferirem, magros. Mas felizes!

*”Fazenda dos Rodrigues” lugar onde me tornei gente a poucos metros do córrego dos Rodrigues, constante em todos os mapas de antes de Furnas.

PessoasPe. JoãoJoão
LugaresGuapéClube dos 70Rua 3 de FevereiroFurnasPassosFazenda
TemasFamília e CasamentoBailes e FestasComércio e Trabalho
— Soninha
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Causo de 2018-03-07

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