Homenagem da família
A cronista de Guapé. A mulher que não esquecia de ninguém.
Sônia Maria de Oliveira Vilela — a Soninha pra todo mundo — nasceu em 1952, lá no Arauna, distrito da roça nas redondezas de Guapé. Filha da Sabina Goulart (a pajem do retrato com o menino Ivo Teixeira), ainda menina veio com a família pra Guapé, sul de Minas Gerais, onde se criou e fincou raiz. Foi mãe, esposa, comadre de meio mundo, e a memória viva da cidade.
Antes de ser cronista de Guapé, ela foi professora. Por muitos anos deu aula nas escolas da cidade, e chegou a ser diretora. Marcou gerações de alunos — gente que hoje está com filho, neto, e ainda lembra dela com carinho de criança.
Era famosa pelos teatrinhos que montava com a turma — fazia os meninos decorarem fala, montava cenário com o que tinha, transformava sala de aula em palco. Tinha um jeito de educar diferente pra época: brincando, contando causo, levando a cidade pra dentro da escola e a escola pra dentro da cidade. Quem foi aluno dela carrega isso até hoje.
"É preciso amor e muito humor: a vida só vale a pena pelos afetos vividos e pelas muitas risadas."
"Dona de uma experiência e de um currículo exemplar na área da educação, ela é amada pelos estudantes e por todos os guapeenses. A simpatia e o humor são suas marcas registradas. Estamos falando da professora Sônia Maria de Oliveira Vilela, a 'Soninha do Zé Carlos', que além de ter lecionado em várias escolas do município, avalia o ensino hoje."
"Os tempos são outros, mas a escola é a mesma."
Na entrevista, a educadora destaca que os profissionais que conseguem se adaptar às mudanças do mercado são os mais preparados pra educar — só que não gosta do modelo de aulas de 50 minutos e despreza o "Livro Didático". Soninha acreditava no "trabalho de interação total em mega projetos, fugindo do comum totalmente".
A matéria fecha com uma frase que define ela inteira: "Sônia Maria de Oliveira Vilela nasceu de fato pra educar e trabalhar com as palavras". Apesar da formação educacional, já adorava notícia — tanto que mantinha o Bão de Prosa no Facebook, com humor e muitas histórias da cidade.
Em 2013 ela criou no Facebook a página "Bão de Prosa - Jornal de Guapé", e durante mais de uma década publicou quase todos os dias: causos, retratos antigos, apelidos, histórias dos vivos e dos que se foram. Eram crônicas curtas com mineirês raiz, ironia carinhosa e uma capacidade rara de transformar o cotidiano em literatura. Ninguém escrevia sobre Guapé como ela.
"Por que eu conto causo que tem meu pai? Primeiro porque eu quero, gosto, e dispois porque vi, ouvi, tenho muito prazer em contar."
Guapé é uma cidade que perdeu duas vezes seu lugar: a primeira em 1963, quando a represa de Furnas inundou a Cidade Velha; e a segunda, sempre, quando os mais velhos partem e levam consigo a memória do que era a vida antes. A Soninha enfrentou esse esquecimento com a única arma que tinha: a palavra escrita.
Em mais de 8,254 causos ela registrou:
Não era jornalismo, não era literatura formal — era algo mais raro: uma comunidade se documentando a si mesma através de uma só pessoa. Cada post dela era lido, comentado, compartilhado por guapeenses espalhados pelo Brasil — uma rede afetiva que mantinha Guapé inteira mesmo de longe.
A história visual da página, desde a primeira capa em 2011 até a última. Cada uma com a marca da época.
A Soninha faleceu em dezembro de 2024, deixando saudade enorme em Guapé e na família. Os comentários nos últimos posts dela viraram velório virtual — gente de toda a cidade, de toda a região, de todos os cantos onde guapeenses moram, despedindo-se da cronista.
Mas restava um problema: todo o trabalho dela estava no Facebook. E plataformas mudam, somem, esquecem. O Facebook que hoje hospeda o "Bão de Prosa" pode mudar política, pode tirar do ar, pode simplesmente sumir. E aí Guapé perde de novo — desta vez, a memória escrita por uma das suas filhas mais atentas.
Por isso este site existe: pra arquivar tudo, com endereço próprio, em domínio que não depende de plataforma nenhuma. Cada causo dela está aqui — pesquisável, com tags, com fotos, com os personagens linkados. Pra que ninguém que ela não esqueceu seja esquecido.
Viva nóis e viva tudo e viva o Chico Barrigudo!
Sônia Maria de Oliveira Vilela · Guapé/MG · 1952 — 2024