Texto de: Evanilton Antônio / Fala de seu pai / Abraço,moço.
A BOMBA
Jamais me esquecerei do ocorrido naquela tarde de outono, na minha infância, em minha querida cidade natal, a pequena e pacata Guapé; margeada pelo lindo lago de furnas, incrustada nas montanhas do sul das Gerais. Por ocasião da semana santa, mais precisamente no sábado da aleluia, era tradição naquela cidade a queima do judas. Era uma grande festa, principalmente para as crianças – e eu me incluía –, que deliravam ao verem o traidor de Cristo sendo queimado e explodindo em meio aos fogos, num espetáculo pirotécnico.
Meu pai era o responsável pela organização da festa, confecção dos bonecos e pelas explosões e, a cada ano, procurava inovar na criação dos personagens e nos fogos, garantindo assim o divertimento do público. Tratava-se de um boneco confeccionado com tecidos, espuma e algumas fibras naturais. Em seu interior colocavam-se fogos de artifício que em determinado momento eram acionados para explodirem, sincronizadamente, criando o efeito que todos adoravam.
Às vésperas das festividades da semana santa, todos os anos, meu pai ia até a cidade grande para comprar os fogos que usaria para explodir o boneco.
Naquele ano, ao realizar a compra, teve a ideia de levar uma bomba com maior poder de explosão que seria uma surpresa para o público e coroaria o show; seria o “gran finale”. Porém, seria necessário muito cuidado, pois aquele artefato tinha um poder explosivo muitíssimo superior aos fogos usados costumeiramente. Tinha que tomar todas as precauções necessárias.
Ao chegar à cidade, a “bomba”, como passou a ser chamada, e que aos poucos deixava de ser segredo e se tornava motivo de comentários entre as pessoas, fora colocada em lugar seguro à espera do momento certo para ser usada. Finalmente chegara o grande dia. Tudo estava cuidadosamente preparado. Meu pai, cujo nome é José Dutra, porém conhecido por todos como “zé fogueteiro” – alcunha recebida evidentemente pelas funções exercidas naquele tradicional show de pirotecnia – , estava bastante excitado e apreensivo; tudo tinha que sair como planejado, tinha que ser inesquecível. E foi. Chegara o momento, tudo preparado, ia começar o espetáculo. De repente, chega alguém e avisa a meu pai, que a essa hora estava rodeado pelas maiores autoridades da cidade, que a bomba havia desaparecido. Como poderia? O que acontecera? E agora? Logo o murmurinho se espalhava em meio àqueles rostos atônitos, todos corriam grande perigo. Concomitantemente, no meio da multidão, uma senhora aparentando meia idade, digamos, com alguma predominância de tecido adiposo, cabelos crespos e emaranhados, começa a passar mal e cai pedindo ajuda. Várias pessoas correm em seu socorro quando a mulher, sufocada e quase já não podendo falar, mostrando, com dificuldades, a região abdominal balbucia: __Foi a... a.. bom...ba! Apavorado com o que ouvira, com os olhos arregalados, um dos socorristas pergunta: __O que minha senhora? A senhora quer dizer que engoliu a bomba?!! E ela, já quase desfalecida, responde, meneando a cabeça positivamente.
Foi um pânico geral. Todos corriam desordenadamente, sem direção, até que se formou uma clareira ficando, no meio, sozinha, a pobre moribunda.
Quem iria socorrê-la? Alguém precisava fazer alguma coisa senão a pobre morreria sufocada. __Deve ser o prefeito Eurico, já que é a autoridade máxima nesta cidade! Exclamou alguém na multidão. __Ah! Nesse caso, por se tratar de um caso de segurança pública, é com o subdelegado Macário, é ele a autoridade militar da nossa cidade. Disse o chefe do Executivo, empalidecido pelo medo e com um leve semblante aliviado por ter se safado daquela. __Não senhor! Retrucou o subdelegado. Isso é sim caso de saúde pública! Portanto, é da alçada do Dr. Sahiun. Esse, de nacionalidade libanesa, era prático-farmacêutico; nem era formado em farmácia, porém era considerado médico, já que não existia esse profissional na cidade. Apavorado, o velho farmacêutico procurava uma desculpa e encontrou, na última hora. __Gente! Olha! Essa senhora, eu a conheço, é uma beata! Assídua frequentadora da igreja e da casa paroquial. Convenhamos, essa é de responsabilidade do Pe. Antonio, que é a nossa autoridade eclesiástica.
O padre por sua vez, inteligente que era, não teve dificuldades para se livrar da terrível incumbência. __Ora! Quem criou todo esse problema? Quem é o responsável por toda essa balbúrdia? O Sr. Zé fogueteiro. Ele que resolva.
Pronto! Sobrou pro meu pai. Como sair dessa situação? Não havia mais ninguém a quem repassar, e todos, como que coreograficamente, com seus olhares imperativos, o impeliram à árdua missão. A distância, pude sentir sua sofreguidão. O pobre, trêmulo e cambaleante, se aproxima cuidadosamente da enferma, com a voz embargada, tenta conversar com ela quando, de chofre, alguém grita em meio à multidão que a bomba havia sido encontrada. Notícia confirmada ao pé do ouvido do subdelegado Macário pelo cabo Juvêncio. Instantaneamente começaram as dissimulações. O prefeito, do alto da sua demagogia, dizia que se sacrificaria para salvar uma cidadã Guapeense. E bramou, com sua costumeira eloquência: __Bem, meu povo! Meus queridos correlegionários! Eu, na qualidade de chefe do executivo, legítimo representante do povo desta cidade, pelo voto que me foi concedido..... Quando foi interrompido por um bêbado: ___Deixa de ser safado sô! Ninguém votou em você não! ___Tá, tá...., Continuou o prefeito: ___Fui empossado por decreto é verdade! Mas é a mesma coisa, sou representante sim da sociedade guapeense. E neste momento, sou chamado ao proscênio, com essa ilustre cidadã, quase em seu epitáfio, me lanço ao sacrifício, mesmo que me martirize, mas tenho que salvar essa coitada que se fenece.... Já o subdelegado, disse que tinha um juramento militar e que o honraria até a morte, mesmo correndo os maiores perigos. O farmacêutico por sua vez exclama com a serenidade que lhe era peculiar: ___Absolutamente Sr. Subdelegado, absolutamente! Esse é um caso de saúde pública! Tenho medicado esse povo há anos, tenho sido médico, psicólogo, conselheiro até. Não vou me furtar do dever de cuidar também dessa senhora. Em nome da medicina, eu me sacrifico! __Sacrifício?! Proferiu o padre. Quem melhor para falar de sacrifício senão a IGRJA!!! Vejam o exemplo de Nosso Senhor Jesus Cristo, que morreu na cruz para nos salvar. Querem maior sacrifício que esse?! Pois eu também me sacrifico, preciso seja, para salvar uma ovelha de meu rebanho.... Mas meu pai, tomado de uma ira que não lhe era habitual, talvez provocada pelas reações químicas em seu organismo, devido às várias sensações experimentadas, tomou posto frente aos déspotas e, de dedo em riste, bramou com veemência: __Basta! Parem todos vocês. Agora é comigo. E se aproximando daquela senhora, que já se recuperava do mal instantâneo que a acometera, com um tom de voz um tanto firme, inquisitiva até, cobrou explicação: __Minha senhora, o que é isso? Não dissestes que havia engolido a bomba? __E engoli mesmo! Respondeu a moribunda, com ar de sonsa. __Mas como minha senhora? Não vistes que a bomba fora encontrada? Está em lugar seguro! __Ah! “Seu Zé” é dessa bomba que vocês estavam falando? Não, a que comi foi uma deliciosa bomba de chocolate!
Evanilton Antonio







