RETRATO DA VIDA
ERA uma vez...Era uma vez...O menininho tinha três aninhos, a menininha dois, e moravam dôtrabanda, ali, da outra banda do rio, o Rio Grande, o que virou Lago de Furnas. Moravam na roça, no arraial, bem do lado da igreja do Araúna, lá no pé da serra onde arma chuva.
ESSES olhinhos sérios, enfeitam o rostinho de AntônioCarlos e esses olhinhos meio tristinhos enfeitam o de SôniaMaria. Sim, penteado de ondas e de chuquinha. Eu virei Soninha, ele virou Carlinho. Viramos um tanto de coisa.
NA ÉPOCA, e na roça, retratista era raro, e dos bons raríssimo, certamente um artista passou no nosso arraial e a pedido de nossos pais deixou-nos essa linda lembrança,nosso tempo de criança.Todos os tios e madrinhas receberam porque mamãe queria nos exibir.
MAMÃE era tão amorosa, tão jeitosa! Costurava nossas roupinhas, bordava com muito gosto e zelo, está aí meu vestidinho, tão bonitinho! Está aí o terninho social de meu irmãozinho. Ela tinha mãos de fada e dava sempre seu toque de arte, taí a prova, até em nosso cabelinho. Moooooooooooooorram de inveja!
JÁ VIU chuquinha iguais a essa? Já viu ondas iguais a essas? Reparem nosso penteado! Reparem na chuquinha da Soninha, euzinha! Reparem nas ondas do Carlinho,o Cacá. Que ondas! Eram feitas com a mão e coração. A chuquinha era feita com o dedo indicador de muito amor. Ela registrou sua arte no trato para o retrato.
ERA uma vez... Era outra vez... Nasceu a ÂngelaMaria que virou Gaia...Era outra vez...Nasceu a RoséliaMaria que virou Rô...Era um tanto de vez... Saímos do pé da serra, deixamos lá a igrejinha, deixamos lá a paineira, mais um tanto de nossa infância e viemos pra cidade atrás de mais felicidade. Era uma vez de novo,outra vez já na cidade...Nasceu o RobsonCarlos que virou Robinho... A rapinha do tacho.
A PARTIR daí vieram muitas idades e temos as marcas do tempo, até aí, na foto, vieram de todas as formas, mas entre cabelos brancos, entre rugas que insistem, ficaram marcas de amor. Cacá mora em Pedro Leopoldo, Rô mora em Varginha, eu, Ângela e Robson, moramos aqui mesmo, em Guapé, na mesma rua, e hoje, eu, em noites de lua, debruço-me na janela e fico olhando pra ela e pensando na vida bela, aquela que juntos tivemos.
SE vejo uma constelação,penso na família de meu coração. Papai Itamar e mamãe Sabina, foram já para o céu e com eles tivemos o céu. Ainda temos daquele brilho, mesmo já eles sendo estrelas perdidas. Vamos levando a vida ou é ela nos levando, e ainda atrás da felicidade e carregando muita saudade, daquelas já encontradas. Sabemos que elas são momentos, mas os vividos, estão em pensamentos e que tragam mais os bons ventos, pois vivemos desses alentos. Lembranças de tempos idos, de amores vividos, temos a certeza da lida e da beleza da vida.
ERA uma vez...Era outra vez...Era um tanto de vez...Assim, depois de tantos começos de ''Era uma vez...'' o amor pincelado nos fez e nunca de uma só vez.
PAPAI,mamãe, nem sei se me escutam, mas agradeço pelo retrato e outros tantos que encontro em meus cantos, nunca com olhos de prantos. Não há lembrança que cansa quando a saudade é boa e vou rindo nessa dança.
AGORA daí da tela, você lê e não me vê, pode até se perguntar, e eu com isso? Agora daqui, te explico, sei disso, mas quero escrever de amor para quem é meu leitor. Nunca posto só o retrato, fica assim o nosso trato.
DAS ondinhas marcadinhas, da chuquinha enroladinha, resta a cena estampada, e a marca do amor na alma tatuada, e a presença de cada irmão, guardada no coração. E de CecíliaMeireles, um verso... "Naquela nuvem, naquela, mando-te meus pensamento e que que Deus se ocupe do vento.''







