5 de setembro de 2018

EM GUAPÉ TEM CAUSOS E CAUSOS E MAIS CAUSOS

O ‘’BÃO DE PROSA’’ AVISA... O BIÉ PASSOU APERTO DEMAAAAAIS... Texto: Walquires Tibúrcio. SE O VELHACO CONHECESSE AS VANTAGENS DE SER HONESTO, SERIA HONESTO POR VELHACARIA” FAZEM exatamente 50 anos. Em

EM GUAPÉ TEM CAUSOS E CAUSOS E MAIS CAUSOS. O ‘’BÃO DE PROSA’’ AVISA...

O BIÉ PASSOU APERTO DEMAAAAAIS...

Texto: Walquires Tibúrcio.

SE O VELHACO CONHECESSE AS VANTAGENS DE SER HONESTO, SERIA HONESTO POR VELHACARIA”

FAZEM exatamente 50 anos. Em julho de 1968, eu Promotor de Justiça em Goiás, fui passar as férias daquele mês na casa de meu pai, Mario Tibúrcio, então proprietário do Grande Hotel Guapé. Nem bem havia chegado, acabava de tomar banho quando meu pai, batendo na porta do meu quarto falou: - O Bié do João Olímpio está aí e quer muito falar com você. Meu pai tinha grande amizade com os Olimpio, destacado núcleo familiar de forte liderança na comunidade do Alazão, especialmente com o chefe do clã, João Olímpio, pai de Bié, e, com este, porque, quando moramos na Fazenda do Veludo, vizinha do Alazão, meu pai e Bié eram titulares do Alazão Futebol Clube, o melhor time daquelas redondezas.

AO CHEGAR no alpendre onde ele se encontrava estavam os dois, meu pai e Bié, exatamente lembrando o famoso jogo contra o time dos Penas, quando, segundo ele, meu pai, goleiro, “inchou o peito de tanto pegar bola” e o time do Alazão ganhou de um a zero, gol marcado pelo Fernando do Lalico. Ele descreveu o histórico gol: “o time dos Penas fazia um verdadeiro bombardeio no nosso gol. Todo o time recuado defendendo como podia. O nosso ponta direita, o Fernando do Lalico, sem ter o que fazer, pois a gente não conseguia fazer um ataque sequer, ficou conversando com o beque dos Penas na proximidade de sua área. Foi quando um dos nossos, acho que o Fio, meu irmão, deu um chutão que atravessou todo o campo indo a bola cair nos pés do Fernando. Aí aconteceu o milagre; Fernando pisou no pé do beque que caiu de costas e driblando o goleiro entrou com bola e tudo, marcando o único gol da partida” E o Bié empolgado com a narrativa continua contando: “ Mas teve mais, a história do pênalti.

NO FINZINHO do jogo o juiz que era deles apita um pênalti contra o Alazão. Seu pai, que era o goleiro gritou logo:-barreira aqui, eu quero barreira. O juiz quis saber logo que história era aquela de barreira. Explicaram que era uma regra nova, há pouco introduzida no futebol e diante da ignorância do juiz enfileiraram 10 homens na frente do gol e o pênalti foi batido.” Final do jogo, um a zero pro Alazão e os jogadores dos Penas saíram do campo chorando. No domingo seguinte vieram pagar o jogo e aí aconteceu o contrário: um pênalti contra eles. O goleiro deles, a exemplo do que havia acontecido no domingo anterior gritou logo: - eu quero barreira. O juiz, que era o João Amaral, esclarecido, conhecedor da nova regra falou claro: - barreira é só quando é falta fora da área; pênalti é tiro direto. O goleiro argumentou:-mas como é que lá nos Penas vocês fizeram barreira ? Molina, irmão do Tarenta, que estava enxertando o time do Alazão, deu a resposta: - quem mandou vocês ser bobos? Virou pancadaria.

ENCERRADAS as lembranças daquelas tão boas recordações Bié disse ao que viera: - Doutor preciso da sua ajuda. Estou encalacrado de dívidas, não aguento mais os credores na minha porta, não tenho um minuto de sossego e já não sei mais onde por a cara de tanta vergonha. Hoje um deles foi na minha porta dizer uma série de desaforos.

ARGUMENTEI que eu era Promotor de Justiça em Goiás, portanto impedido de advogar, mas que ficaria em Guapé até o final das férias e que o orientaria no que fosse possível para procurar uma solução para tão angustiante problema. E já como primeira medida eu lhe disse: - faça uma relação completa de todos os credores, com os respectivos créditos e traga pra mim, vamos ver o que fazer. Foi rápido, no dia seguinte levou-me uma folha de papel almaço com o nome de 25 credores e os seus respectivos créditos. Ao pé da folha a soma do total, isto só do valor nominal, sem se falar em juros. São os últimos credores, explicou, os menores, os maiores e o Banco do Brasil já paguei com a venda que fiz de 60 alqueires de terra para o Tiao do Arão. O que me resta é a fazendinha de 33 alqueires no Veludo, que tem formado café em 11 alqueires. Foi sincero: - não dá para cobrir o que ainda devo. Na época o café estava cotado a 15 mil a saca, o que não dava, segundo os produtores, pra cobrir as despesas da panha e assim, nem com umas tantas colheitas seria possível sair do buraco. Ademais Guapé sofria outro problema que praticamente inviabilizava qualquer tentativa de venda da terra. Com o fechamento da represa de Fumas havia uma grande oferta de remanescentes de fazenda inundadas, com preços aviltados, proprietários que queriam a qualquer custo se desfazer do que lhe sobrara para demandar outros rumos. Há tempos os cartórios não passavam uma escritura de compra e venda. Analisados os números ele falou: - sou um homem honesto, jamais pensei em dar prejuízo a alguém. Entrei nessa situação honrado e quero sair honrado. Tudo que eu tenho é essa terrinha. Se tiver um jeito de entregá-la aos credores para liquidar o que devo eu faço na hora. O que mais quero é sair desse inferno que estou vivendo.

JURIDICAMENTE a saída seria requerer em juízo um concurso de credores, instituto de direito que correspondia para a pessoa física o que era a então concordata, hoje recuperação judicial, para a pessoa jurídica. Essa medida apresentava no entanto duas sérias barreiras. A primeira: seria preciso contratar um advogado, o que implicaria adiantar honorários e custas processuais, coisa que na situação em que se encontrava não podia nem pensar. A segunda, eu sabia muito bem, seria a eternidade da solução do problema. Conhecendo, como conhecia, a lentidão da justiça sabia que a coisa se arrastaria por anos e anos e ao invés de resolver um problema ele arranjaria mais um. Ademais, alertei, esse concurso de credores vai parecer aos olhos de todo mundo como um calote jurídico e seu nome estará manchado pra sempre.

VENDO a sua firme disposição de resolver o problema entendi que o melhor caminho era tentar um acordo com os credores. A velha máxima gritava: mais vale um mau acordo do que uma boa demanda. Vamos tentar.

PEGUE essa lista - falei - vá à casa de um por um e convide para uma reunião em sua casa, domingo, às 9 da manhã, daqui a 15 dias. Na véspera do encontro informou-me que não ficara ninguém sem avisar. Dei a ele esperança de se conseguir um acordo e recomendei, bem recomendado, que durante a reunião eu daria um sinal para que ele deixasse a sala.

ÀS 9 EM PONTO,portando uma máquina de escrever, cheguei em sua casa. Bié havia providenciado cadeiras para todo mundo e acomodados, sem mais delongas, entrei direto no assunto: - Pessoal, bom dia. Meu nome é Walquires Tibúrcio, sou mais conhecido por Quirinho, sou filho de Mario Tibúrcio que os senhores já conhecem. Sou Promotor de Justiça em Goiás mas não estou aqui, nem como promotor e nem como advogado. Aqui estou como amigo do Bié para tentar encontrar, com a ajuda dos senhores, uma solução para o problema da sua dívida. Primeiramente vou fazer uma chamada, lendo desta relação o nome de cada um acompanhado do valor nominal do seu crédito. Peço que confirmem se o valor está correto. Ao chegar ao final da lista continuei: -os senhores quando fizeram empréstimo ao Bié sabiam que ele era uma pessoa honesta, caso contrário não teriam emprestado. Ninguém empresta a quem não confia. Ele era e continua sendo uma pessoa honesta. Infelizmente chegou nessa situação de insolvência por circunstancias inteiramente superiores às sua forças e à sua capacidade de enfrentamento. Tem passado, juntamente com sua mulher e seus nove filhos, as maiores vicissitudes e humilhações, e quer, com a ajuda dos senhores, sair desse verdadeiro inferno em que se transformou a sua vida. A única coisa que possui é a fazendinha onde tem plantado 11 alqueires em café, não tem mais nada. Autorizou-me a propor a entrega da sua terra para pagar o que deve. Se aceita a proposta ele dará uma procuração para um. Indicado pelos senhores, com poderes para vender a terra. O que se apurar será dividido proporcionalmente ao crédito de cada um. Está visto que os senhores não vão receber a totalidade do crédito a eu têm direito, mas, infelizmente, é o que se pode fazer. Perdem-se os anéis mas salvam-se os dedos.

FIZ UMA PAUSA aguardando o cessar do murmurinho que se fez e prossegui: - vou consultar um a um se concorda ou não com a proposta . O primeiro da lista e maior credor era o Sr. João Alvarenga, mais conhecido por Joãozinho Messias, comerciante em Ilicínea. A sua resposta foi surpreendente: - concordo sim, como não vou concordar com uma proposta honesta como essa ? A pessoa me chama para entregar tudo o que tem, eu posso recusar ? E completou: - há pouco tempo mandei para um frigorífico de Campo Belo um caminhão de porcos. O motorista recebeu o valor da venda, sumiu com o caminhão e o dinheiro. Fui atrás para recuperar o que era meu e ainda levei uns tiros. Agora o Bié me chama para entregar o que tem de mão beijada, eu posso recusar ? Diante de tão expontânea e sincera manifestação desnecessário dizer que à chamada de cada nome soava como doce música em nossos ouvidos os repetidos “ concordo”, “ concordo.

ATÉ QUE CHEGAMOS ao nome de Euclides da Cunha: - eu não concordo, não vou receber pelas metades. Eu quero receber é tudo. Antes que pudéssemos abrir a boca Joãozinho Messias, o comerciante de Ilicínea atalhou: - quanto é o seu crédito Senhor Euclides ?. O crédito era um dos menores. Dito por ele a quantia Joãozinho encerrou o assunto: - não se preocupe Senhor Euclides, eu me encarrego de acertar com o Senhor. Dizem que graveto é que faz fogo grande, foi o único discordante. Indicaram o mesmo comerciante para se encarregar da venda tendo sido passada para ele no dia seguinte a necessária procuração.

PAPEL na máquina, enquanto era servido um café, redigi uma ata com o que havia sido acordado, deixando claro que antecipadamente concordavam, sem direito de contestar, com o valor que fosse obtido na venda do imóvel.

VENCIDA essa primeira e mais difícil etapa fíz o convencionado sinal ao Bié que aproveitou ter acabado de servir o café e foi para a cozinha levar o bule e a bandeja com as xícaras.

- PESSOAL, vou aproveitar que o Bié não está presente e vou fazer um pedido. Até agora eu falei em nome dele, fiz a proposta que ele mandou que fizesse, mas agora eu quero falar em meu nome Os senhores sabem como o Bié chegou nessa situação de endividamento ? Não foi jogando baralho, não foi bebendo cachaça, não foi gastando com amante. Foi trabalhando, trabalhando duro, de sol a sol, no cabo da enxada, na capina, na panha do café. Isso uma vida inteira, sem parada, sem férias, sem descanso. Agora eu pergunto será que é certo, será que é justo um homem trabalhar a vida inteira e ao chegar ao final dos seus dias ter de entregar tudo que possui para os credores e sair de sua terra com a mão abanando, de cabeça baixa, somente com a sua mulher, os nove filhos e duas botinas, uma no pé e a outra na bunda ? Será que isso é justo, será que isso é humano ? E por isso que eu quero fazer o meu pedido. Ele não me pediu que o fizesse, sou eu que o faço. Já que todos vão receber menos do que tem direito, vamos perder, cada um um pouquinho mais. Tenho certeza que ninguém ficará mais pobre com isso. Vamos reservar pra ele um pedacinho da sua terra pra que ele possa nela plantar um feijão e poder acabar de criar os seus nove filhos. Podem ter a certeza que Deus recompensará em muito esse ato de nobreza.

CONCORDÂNCIA total e eu fiz constar na ata que ficavam reservados ao Bié 11 alqueires em volta da sede. Como esses alqueires estavam plantados com café consultei aos credores se concordavam que ele ficasse com a colheita até que se vendesse a terra. Da mesma forma, todos concordaram.

TERMINADA a ata, lida e achada conforme, colhi a assinatura de todos. Estava acabado o meu trabalho. Agradeci, dando a mão a cada um. Bié abraçou-me. Chorava.

TERMINADAS as férias voltei para Goiás para enfrentar as agruras da promotoria, da qual viria a pedir exoneração pouco tempo depois.

VOLTEI a Guapé na Semana Santa do ano seguinte. Bié relatou o final da história. Deixou José Wagner, o filho mais velho, tomando conta da fazendinha e foi com a mulher e os oito filhos para o Estado de São Paulo, Campinas. Lá todos arranjaram um emprego. Ele de cobrador da Viação Cometa. Dona Iolanda lavando roupa. O pouco dinheirinho que sobrava de cada um era mandado para José Wagner ir custeando as despesas da lavoura de café. Paulo Guilherme , outro filho, não se adaptando a Campinas voltou para a ajudar o irmão. Aí acontece o milagre, a saca de café que à época do acordo valia 15 mil passou a valer 150, dez vezes mais. Voltam todos, correndo, fazem a colheita, nada menos do que 150 sacas. Joãozinho Messias que recebera a procuração para venda da terra e não achara por ela mais do que 17 milhões e meio foi o intermediário de excelente negócio, entregando para Orlando Amaral as 150 sacas de café colhidas, no valor de 22 milhões e quinhentos mil, ficando Orlando com o compromisso de pagar a todos os credores. Este foi chamando um a um, fazendo o pagamento e recebendo a correspondente nota promissória. E Bié arrematou: - agora doutor o Orlando me entregou todas as promissórias, não falta nem uma. Sábado da Aleluia eu vou fazer um Judas lá na fazenda, vou amarrar o maço de promissórias nas mãos do Judas e o senhor é quem vai por fogo.

PASSARAM-SE 50 ANOS,agora, em julho de 2018, fui com minha prima Guidinha, fazer uma visita ao Bié, naquela mesma fazenda. Nunca mais nos encontramos depois da queima do Judas. Lá estava ele, agora com 92 anos, dona Iolanda um pouquinho menos, cabeças brancas, completamente lúcidos, ela recordando, com infinita tristeza o casal de perus que teve de entregar a um desaforado credor nos angustiosos dias que em que estavam a dever o mundo e o fundo. Não estava me reconhecendo. Quando eu disse quem era abraçou-se comigo e começou a chorar. Durou um infinito aquele apertão de almas. Ele e eu mergulhados em 50 anos de passadas lembranças. Ele a custo se compõe e vai, daí pra frente, desfiando histórias e mais histórias, com todos os detalhes, datas, nomes e números, não faltando sequer o famoso jogo contra os Penas. A mesa vai se enchendo, café, coalhada, pão de queijo quentinho, acabado de assar, doces, queijo, carne de lata, um mundo de coisas.

NO TERREIRO, despedindo, abraça-se comigo e chorando aponta para a encosta verdejante - olha doutor, hoje são cento e cinquenta mil pés de café, foi o senhor quem me deu.

Goiânia, agosto de 2018 .

PessoasTibúrcioRosaWalquires TibúrcioBiéRosaJoão
LugaresGuapéGrande HotelFazenda
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— Soninha
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