20 de novembro de 2016

Antônio Evaristo & Rachel – UMA CASA DE FAZENDA

A casa era comum, ampla, mas sem exageros: uma sala ampla, com o quarto ao lado, uma “varanda” que distribuía para outros 3 ou 4 quartos, sendo um “de dentro” e enfim a cozinha om seu fogão de lenha e

Antônio Evaristo & Rachel – UMA CASA DE FAZENDA

A casa era comum, ampla, mas sem exageros: uma sala ampla, com o quarto ao lado, uma “varanda” que distribuía para outros 3 ou 4 quartos, sendo um “de dentro” e enfim a cozinha om seu fogão de lenha e despensa. Na parede da sala alguns quadros de santo, entre eles São Jorge, na “varanda” além do relógio que batia a cada quarto de hora, um quadro que me fascinava, pela violência da imagem: uma cena onde o pecador, jogado ao chão, era degolado pelo “guerreiro de Deus”!

Naquela casa moravam meu avô Antônio Evaristo, minha vó Rachel e o caçula tio Antônio. Existia ainda aquele que, era sempre bom encontrar, uma espécie de “valet” da casa, o Joãozinho “Zaía”, brincalhão, sorridente e prestativo. Uma vez por ano minha mãe, nunca meu pai, juntava os seus pequenos, meu pai preparava os cavalos e seguíamos, por uma semana em média, para a casa do vovô. Todos nós gostávamos muito deste programa anual.

O dia sempre começava muito cedo. No curral, de frente pra casa, o leite era tirado toda manhã por 2 ou 3 “retireiros”, nunca meu avô, que ficava grande parte do tempo, tomando café, perto do fogão e prepara do o seu cigarro. O que a casa não tinha de especial tudo que a rodeava era grandioso e imponente, a começar da longa escada que saia da porta da cozinha e que desembocava em um imenso terreiro, onde o arroz, o feijão eram “batidos” ou mesmo o café era secado. N parte de cima do terreiro as “casinhas de despejo” para o armazenamento dos mantimentos. Muito menos comum era o “chiqueiro” de engorda dos porcos: 3 ou 4 divisões com piso cochos de pedra mineira e sobretudo um muro de pedras onde a gente caminhava vendo os porcos embaixo. Interessante, e muito diferente da minha casa, aquilo era lavado todos os dias e estava sempre muito limpo.

Continuando o passeio, à esquerda dos porcos existia o engenho, com suas moendas monumentais, com dentes de madeira e que me pareciam de um peso absurdo para apenas 4 bois movimentarem, dando a volta o dia inteiro para fazer a garapa que seguia direto em bicas até os tanques, antes de serem colocadas naqueles tachos de cobre enormes. Foram muitas “puxas” esfriadas na água, depois de tiradas dos tachos, com “remos” de madeira que pingavam nas gamelas com água, para “tirar o ponto” das rapaduras.

Mas a surpresa maior ficava pela coleção enorme, de 20, 30 ou mais ”fruteiras”, sim para nós, crianças da época, quando se falava em fruta, era apenas o nome da jabuticaba. Jabuticabas de todos os tamanhos, “doçuras” e crocãncias: as pequenininhas da pele fina, doce como mel, as maiores que estouravam na boca, caudalosas e de caroços grandes, que minha mãe recomendava para jamais engolir, sob o risco de termos enormes problemas (intestinais) depois. Me lembro bem que uma ou outra irmã, esquecia da recomendação e o preço a pagar era sempre muito alto.

À noite, sob a luz das lamparinas de querosene, meu avô no “rabo do fogão, com seu “pito”, minha vó numa cadeira perto do fogão e nós, enfileiradinhos no bancão de madeira, ouvindo as conversas. Era comum receber a visita dos primos, principalmente do tio Evaristo, mais velhos que nós ou mesmo de outros tios, como o tio Zé, que costumava ajudar meu avô.

Foi na casa do meu avô que vi e ouvi, pela primeira vez um rádio, daqueles que tinham uma bateria enorme, do tamanho dele e que ficava por baixo. Era ligado no final do dia para nós ouvirmos musicas caipiras, como as do Tonico e Tinoco, ou ainda Saudades do Matão e depois Coração de Luto. Nesta ocasião uma cena da qual nunca irei me esquecer: o radio tocando, lá na varanda e minha vó diz pro meu tio: “desliga isto porque a Aparecida (minha mãe) está chorando lá no quarto de dentro”. Meu irmãozinho Warley tinha morrido menos de um mês antes.

Os dias passavam rápido pois além da casa do meu avô, todos os filhos dele moravam na fazenda, então cada dia íamos visitar um. Na casa do tio Miro, me chamou a atenção, um sistema que através de correntes jogava agua sobre uma caixa que depois era distribuída na casa. Nunca mais vi aquilo em minha vida – ficava impressionado como a agua grudava nas argolas na subida da corrente e desaparecia na descida.

Poucos anos depois veio Furnas, a agua subiu e engoliu tudo aqui. A indenização, quando foi paga, daria pra comprar uma TV, ultimo modelo, em preto e branco! Meu avô, desiludido, mandou construir um barracão de tábuas, 2 metros acima do lugar onde a água parou e morreu ali, 20 anos depois!

PessoasJoão
LugaresFurnasAparecidaFazenda
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— Soninha
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