ABÍLIO DE ABREU, O MOÇO BONITO QUE CHEGOU PELO RIO
ESSA BONITA história começou na década de 40 quando por essas bandas um moço bonito, com pinta de galã mexicano,saiu de sua cidade Ribeirão Vermelho, bem pertinho de Lavras e veio no ‘’Vapor’’ pelas águas do rio e desceu em Porto Ozório, Santo Hilário. O Vapor trazia, além de mercadorias para a região, também passageiros. Por ali, perto do porto, uma da fazendas era do Sr.Juca Pompeu, pai de umas moças muito bonitas e uma delas deixou o moço apaixonado, era a ROSALMIRA.
NÃO SEI SE o moço que veio pelo rio foi a negócios, não sei se veio acompanhando um irmão que vinha pra essas bandas, ou se veio mesmo passeando. Ah! Também não sei onde avistou a moça bonita, se no porto, se em alguma porteira da roça, se na igrejinha de Santo Hilário, se aqui em Guapé em dia de missa, não sei, mas teve namoro, noivado, casamento, e daí nasceram bonitas flores, Amélia, Márcia, Roseles, Vail, Ronaldo, Marisa e Ronilda. Guapé abraçou com amor o moço bonito, alegre, sonhador, que chegou pelo rio num vapor.
A CASA DE Abílio de Abreu tinha gosto de festa, muita alegria, seus fiotes enchiam a casa de amigos, primos e a brincadeira rolava solta também na rua. Era muita criança feliz na rua da Cidade Velha. Entre um Pique Esconde e outro, as crianças cresceram e a festa continuava na casa dos Abreus ao som da sanfona da bela e risonha MÁRCIA que era a atração principal desde jovenzinha. Márcia possuía um sorriso especial e inesquecível, ela também fez serestas e festa de muitos guapeenses.
AMÉLIA era uma professorinha muito linda e acho, foi a primeira professora de Pré Primário da cidade, acho também que a escolinha era em sua casa. Foi também professora no Grupo Escolar D. Agostinha Flor de Maria. Eram muitos os moços que queriam o Sô Abílio pra sogro. O moreno VAIL era o violeiro que acompanhava a Márcia na sanfona, simpático e bonito, despertou muitos amores. O RONALDO, um doce de moço, uma carinha alegre, bonita, de uma simplicidade comovente, acompanhava a Márcia no sorriso. As três últimas, ROSELES, MARISA e RONILDA enfeitavam Guapé, lindas morenas de olhos escuros. Uma família também bonita de coração.
AS ÁGUAS chegaram, despedir da casa da Cidade Velha, da rua, dos costumes, dos vizinhos, despedir de tantos que foram embora, da paisagem, certamente doeu e todas as saudades foram juntas na mudança para a Cidade Nova. A sanfona da Márcia ficou muda por uns tempos, mas a vida seguia, a alegria de volta, as serestas, havia mais uma sanfona ao lado na casa vizinha, a de meu pai Itamar,do outro lado da rua, outro violeiro, o Fernando Lalico, e a rua era alegre. Entre a casa de D. Rosalmira e Donana, moravam os avós de muitos netos, D. Augusta e o Sô Juca Pompeu Laudares e por ali muito movimento. Anos depois o Sô Abílio virou anjo, só quero dizer isso porque sua vida foi linda e só deixou lembranças maravilhosas para a família, amigos e toda nossa cidade.
A FAMÍLIA vive em Belo Horizonte, Guapé nunca esqueceu essas pessoas especiais e também eles nunca esqueceram Guapé, as suas casas continuaram para possíveis encontros em férias e feriados. Roseles também comprou uma ao lado para continuar suas histórias. Não tem mais o som da sanfona da Márcia, nem tem mais o som do violão do Vail porque viraram anjos.Por acaso, a última vez que Vail visitou Guapé, tive o privilégio de ouvi-lo tocar e cantar muitas e muitas lindas músicas antigas na casa de seu primo Zé Luiz e em minha casa.As cinco da matina terminamos com uma seresta na janela de José Rogério.
RONALDO, sempre foi alegria,vou contar, um dia, no ônibus de Formiga a BH,eu estava dois bancos a frente do Ronaldo Abreu, não sei o que ele arrumou,caiu do maleiro uma sacolinha no corredor e saiu o que tinha dentro rolando.Eu vi.Um pepino e uma cueca.Deve ter esquecido,eu não.Achei estranho e engraçado.Ele catou rapidinho. Tem outra, quando ele aprendeu dirigir,comprou um fusquinha,acho que branco,os primos contaram que ele gastou na primeira viagem, 8 horas de BH a Guapé,isso porque toda vez q via um caminhão pelo retrovisor, parava no acostamento,hora que passava,entrava de novo no asfalto.kkkkkkkkkkkkkkkk
DA RONILDA a caçulinha, só um ano a mais que eu, minha amiga na adolescência, até ouço ainda ela me contando o filme ‘’Romeu e Julieta’’, assistiu num passeio na capital e se encantou pela história, os artistas, nós duas sentadas no alpendre de seu vô Juca e eu ouvia detalhes da história de amor, da briga da família Capuleto e Montéquio, só que ela falava Montequío e só anos mais tarde pude ver o filme, eu nem me emocionei porque a Ronilda narrou detalhes com tanta emoção, que o filme do Franco Zefirelli perdeu pra ela...Rááá!
O VAPOR que trouxe o moço bonito pelo rio, trouxe também o talento de quem desenhava sonhos, desenhava alegria ao seu redor, era humorista dos melhores e motivo de muitas gargalhadas e até hoje, é falar no Sô Abílio para alguém lembrar uma fala engraçada, uma piada ou alguma armação. Não tenho como contar muitos de seus causos porque daria um livro, mas ouvi dois recentemente.
UM DELES foi lembrado por D. Esmeralda, diz ela:
" Nanãe, a Ana da Sá Dilina, era costureira, solteira, amiga dele, mas meio tímida e cada vez que passava perto do Sô Abílio ele fazia suas graças e cada dia perto de pessoas diferentes. Ele dizia, ô, Ana, amanhã passo em sua casa a noite pra você tirar medidas da minha cueca. Ela ficava brava, mas não adiantava. Outro dia ela passava e ele, ô Ana, já colocou rendinhas na minha cueca? E assim ia fazendo a Ana corar de vergonha e quando tinha oportunidade ela pedia pra ele não falar mais em cueca, mas ele inventava outra. Era muita risada.''
Assim todos contam e que seu bom humor era constante, seja com criança ou adulto, em casa ou na prefeitura. Era o SENHOR ALEGRIA, uma pessoa que escreveu bonito e com letras muito bem desenhadas, uma parte da história de Guapé.
O OUTRO causo quem me contou foi o Walquires Tibúrcio,e então pedi que ele escrevesse já que tem até o livro dos causos de Guapé, daí ele me mandou o causo abaixo:
‘’Abílio era secretário da prefeitura. Verdadeiro artista, fazia, nas horas vagas, perfeitas réplicas de navios e locomotivas, essas com todos os vagões observando rigorosamente a escala e com a observância dos mínimos detalhes. Dono de uma letra perfeita, era um trabalho de arte qualquer página escrita por ele. Gostava muito de fazer brincadeiras com as pessoas. Tinha um excelente senso de humor e não perdia oportunidade de pregar uma peça em alguém. Certa ocasião pegou um desses “cocôs” de massa, réplica perfeita de um verdadeiro. Como era o secretário da prefeitura e na parte da manhã não havia expediente, foi para lá, colocou o “monte” no chão do enorme salão onde ficava o balcão de atendimento ao público e jogou à frente um pouco de água, como se fosse xixi. Tendo combinado com o advogado Dr. Venceslau, este debruçou-se na janela do cômodo onde se encontravam e ali ficou esperando, até que subindo a rua, vem vindo o senhor Júlio Passos, escrivão do cartório de notas, engravatado, vestido com o seu costumeiro terno preto e portando pendurado no braço o inseparável guarda-chuva. Ao dar com o advogado na janela, cumprimentou: - Bom dia Dr. Venceslau, tudo bem ? - Não senhor Júlio, não está tudo bem não. - Uai doutor, o que aconteceu ? Olhando furtivamente para dentro e abaixando a voz o Dr. Venceslau inclinou-se na janela para não ser ouvido e disse quase em segredo: - O senhor não ficou sabendo o que aconteceu com o Abílio ? Ante a negativa: - O Abílio ficou louco, completamente louco. - Louco doutor ? Mas não é possível. - Sim, senhor, louco varrido, e eu estou aqui vigiando para que ele não saia - dizia isso e olhava furtivamente para dentro para se certificar de que não estava sendo ouvido – estou esperando a chegada do Sô Juca, seu sogro, que está vindo da fazenda para irmos interna-lo no hospício, lá em Barbacena. - Meu Deus do céu, como é que foi acontecer uma coisa dessas ? - Foi de repente, de uma hora pra outra ficou louco varrido. Ainda bem que não está furioso. Só tem feito umas coisas muito esquisitas, hoje ele bebeu água quente, rasgou dinheiro e passou bosta na cabeça. Tá fazendo cada coisa que ninguém acredita, entra aqui e veja o estado em que ele está. O senhor Júlio mais que depressa entra na prefeitura. No centro do salão estava o Abílio com as calças arriadas, agachado em cima do “monte”, com o cabelo todo desgrenhado, os olhos esgazeados, próprio dos loucos. Ao ver o Júlio, levantou-se depressa, segurando as calças, olhando fixamente com os olhos muito arregalados. Ficou olhando, olhando, sem dizer palavra. O Júlio da mesma forma, estatelado, olhava boquiaberto. De repente Abílio desvia os olhos para o chão, depara com o “monte”, apanha-o rapidamente e joga em direção do Júlio que solta um grito e dá um pulo, desviando –se do projétil. Dr. Venceslau e Abílio caem na risada e o atarantado Júlio explica às pessoas que chegavam: - Mas como eu não iria acreditar ? O Dr. Venceslau, pessoa séria, me dá a notícia; quando eu entro na sala lá está o Abílio com as calças arriadas, agachado em cima da coisa. Pra dizer a verdade cheguei até a sentir o cheiro, e completando: - Vi até uma fumacinha subindo.’’
EU AMO escrever sobre as famílias e tenho enorme prazer em postar a família do Sô Abílio que foi sempre muita querida. Prazer também em postar os seus retratos de várias épocas, assim, sei, deixarei muitas pessoas felizes, recordando a infância, a mocidade. Obrigada pelos retratos, Amélia Abreu.
Um salve para a família Laudares Abreu! Um salve para os amigos da família do Sô Abílio de Abreu! Um salve para quem já ouviu falar do Vapor que trouxe o moço bonito sonhador e que desembarcou em Porto Ozório para viver uma história de amor e engrandecer Guapé!
De Guerra Junqueiro: ''Por isso, quando o Sol da vida já declina, Mostrando-nos ao longe as sombras do poente, É-nos doce parar na encosta da colina E volver para trás o nosso olhar plangente, Para trás, para trás, para os tempos remotos Tão cheios de canções, tão cheios de embriaguez, Porque, ai! a juventude é como a flor do lótus, Que em cem anos floresce apenas uma vez.''









