A REVOLTA DAS BARATAS OPRIMIDAS
Em uma casa de classe média, de um bairro silencioso, havia uma barulhenta casa de fundo. Essa casa, embora pequena, abrigava grandes corações, o que provocava tamanho barulho. Mas naquela noite quente de quinta-feira o barulho era acompanhado de muita agitação e era causado por um acontecimento inusitado: A Revolta das Baratas Oprimidas. *** Os três pratos ainda estavam na mesa quando a provocação começou: The First. Ela passou despercebida quando atravessou até o fogão, mas cometeu um erro ao passar pelo pé da moça de cara fechada, pois o grito foi certeiro, todas se alarmaram e a menina loira matou-a, era uma barata e tanto, talvez ocupasse um bom cargo no âmbito das cascudas, mas isso nunca foi discutido entre as heroínas daquele dia. Assim que a moça mais alta tirou o corpo dali, com devida repulsa, um telefone tocou e ela foi para o quarto atender. Amor é bicho louco. A noite dava sinais que iria terminar pacatamente quando a vingança veio: The Second. Essa andava mais rápida e foi vista com antecedência pela moça de cara fechada, ali começou a perseguição, corre, pula, grita, pega o rodo, bate, joga o chinelo. Novamente a menina loira acabou com tudo em um pisão. Receosas que sofressem um ataque enquanto dormiam, as duas decidiram jogar água e sabão para tornar o lugar inóspito para baratas. Foi ai que aconteceu: The War. Elas vieram de dentro do ralo de escoar a água, e embora não seja possível provar, a moça de cara fechada jurou que viu seus olhos de artrópodes arderem em fúria, pequenas guerreiras dispostas a espalhar o caos. Primeiro foram duas menores, que estavam visivelmente desnorteadas pelo cheiro dos produtos de limpeza, andavam loucamente e sem direção. A gritaria começou, eram duas contra duas, afinal, um telefonema apaixonado não deve ser impedido por uma pequena revolução. “Ela tá perto do portão, ali, mata!” Disse a moça de cara fechada. “Tô vendo, liga a lanterna do celular rápido, ela vai sumir!” Respondeu a menina loira. “Cara, tem mais uma ali, grandona, o que a gente faz?” A cara fechada dessa já passara ao pânico total. “Vamo jogar fogo no ralo, ai mata tudo! Mata ela logo, larga de ser monte!” “Mas nos esgotos não tem um gás que pode explodir?...” A criança em pânico foi interrompida pela moça alta, que saiu do quarto com o telefone na mão: “Que? Fogo?” Olhou ao redor e viu quatro baratas mortas, além das duas revolucionarias solitárias. “ah, tudo bem”. E assim voltou ao quarto e perdeu a oportunidade de narrar sobre essa épica batalha aos seus filhos. No fim não houve fogo, não houve explosão, nem grandes ferimentos. Mataram cinco baratas que se juntaram as duas primeiras. A loira matou mais, com certeza, mas a moça com cara fechada sempre contou como ela matou quatro baratas naquela noite. Após limparem a bagunça, riram daquilo, afinal o dia não podia estar mais rotineiro até aquilo acontecer, algumas histórias existem apenas para marcar o momento. Gostaria de encerrar dizendo que terminaram tudo bebendo uma cerveja enquanto contavam os melhores momentos pra moça alta, mas tinham aula no dia seguinte e só uma delas apreciava cerveja. De qualquer modo contaram isso várias vezes, mas como de costume ninguém achava grande façanha. Não é da natureza dos homens admirar os heroísmos do próximo. Dormiram tranquilas e satisfeitas da lição que haviam dado nas invasoras. ***
Dias mais tarde na mesma casa, noutra noite quente, uma cascuda entrou num rasante pela janela e bateu de cara com a parede. “Cara, um dinossauro bateu ali” (É fácil adivinhar quem disse isso). As duas lutadoras da outra batalha se olharam e tiveram certeza que aquilo só podia ser plano da vizinha que tanto reclamava do barulho das garotas. Mas mal sabia ela que as meninas estudavam química, física e filosofia, faziam comida as pressas e se adaptavam bem a situações adversas. Elas estavam acostumadas a mais de uma barata por dia.
(Nayla, vc é jovem e talentosa,vai guardando seus textos e escrevendo mais.Abraço, Soninha.)




