A PESCA EM GUAPÉ TEM NOME... TONINHO CAVALHADA! O MENINO DO RIO!
HÁ TEMPOS quero registrar a principal personagem da Pesca em nossa terra desde a Cidade Velha, agora ouvi o Rei da Pescaria. Muitos pescaram, mas ele foi e é o mais famoso e que atravessou dois tempos, antes e depois da inundação.Pescou enquanto teve saúde.Guarda saudades de 80 anos.
TUDO começou com seu avô Antônio Rodrigues Oliveira, o PaiTonho que tinha outras atividades e gostava de pescar com o filho Pedro Cavalhada e que começou a levar o filhote ainda criança para as barrancas dos rios ou em canoa. Iam para o rancho que tinham perto do Salto do Rio Sapucaí, lá onde moravam os maiores peixes, logo ali perto dos Penas. Era peixe fora do jeito.
O ‘’SALTO do Sapucaí’’ pelos milhares e milhares de peixes, é registrado em nossa história guapeense e região, como motivo da maior batalha indígena da América Latina tamanha era a quantidade de peixes. É o que li. Lutaram cem mil índios. Por aqui viviam a nação Cataguá, os mais bravos.
UM POUCO DA PROSA COM O REI DA PESCA...
_Conta pra mim sobre seu tempo de pescador, Toninho. _Acompanhava meu pai que acompanhou meu avô. Aprendi tudo. _Conheceu tudo do Rio Grande e Rio Sapucaí? _ E da represa também. _Toninho, só pescavam de anzol? _Não, além dos dois tamanhos de anzol, as redes eram armadas. _Traziam tudo pra Guapé? _Não, lá parava gente demais para comprar, saía até caminhão de peixe . _Os anzóis diferentes usavam quando? _O anzol grandão era para pescar Jaú, o menor para Dourado. _Os peixes trazidos pra Guapé vinham picados? _Não, eram picados aqui. A gente não vencia trazer, vendia tudo. _Só pescavam no Salto do Rio Sapucaí? _Nas épocas certas era lá, mas a gente pescava também aqui no Rio Grande.
TONINHO PASSOU a acompanhar o pai nas pescadas com 12 anos de idade e por essas e outras virou mestre na arte, sabia das manhas no rio e represa, entendia os segredos das águas, profundo conhecedor do assunto e será sempre o grande pescador na História de Guapé. É referência.
ELE ERA proibido pelo pai Pedro Cavalhada a tentar pescar peixe grande pelo perigo, mas...
_Toninho, você obedecia? _Eu obedecia, até que um dia, pela primeira vez chutei o pau da barraca, tentei escondidinho minha pesca de anzol grande porque morria de vontade e foi um sucesso e foi muito barulho. _Por que barulho? _Uai, eu com 12 anos peguei a sonda, o anzolão, fui tentar e quem foi fisgado? Um Jaú, mas um jauzão e veio um de 70 quilos, 70, sem mentira, minha estréia foi pra valer. Tô assustado até hoje. _Você deu conta? _Que nada! Cadê as forças? Eu só tinha força pra berrar. _Berrou por causa do peixe grande? _Tamém, era muito grande, passei muito aperto porque a linha, um fio de nylon 0100, quando enrolei ela na mão e o peixe veio, Deus do céu! _O que aconteceu? _Garrei a gritar, gritar, meu pai veio correndo, quem tava lá também acudiu, meu pai custou a tirar a linha enrolada em minha mão, sangue corria, o corte foi profundo, olha aqui a cicatriz que carrego. Por nada perco um dedo e o Jaú me leva pro fundo. _Então foi uma confusão? Berrou demais por causa do Jaú? _Mais ainda, berrei de susto, berrei de dor com o nylon cortando meu dedo e berrei dobrado por causa da tunda que eu levei. Aí que berrei direito, apanhei demais.
O TONINHO me contou os causos com muita satisfação, a Piedade sua esposa e companheira também de muitas pescas confirmava tudo e também contava o que viveu. Levei a Leila de motorista e testemunhou a prosa que foi muito agradável. São muitos causos. Dá até para imaginar, um rancho bem na beira do rio, sempre pessoas diferentes nas prosas, almoços, jantas, cafés, a alegria das fisgadas.Até Cascatinha e Inhana estiveram no rancho e foi lá que Horácio,pai de Laurinha e Dr.Pedro se conheceram.
FIQUEI CURIOSA, COMO FAZIAM COM TANTO PEIXE JÁ QUE VENDIAM ERA DE MONTE
_Toninho, mas não perdia, não passava da hora de comer? _Não, vou te explicar, a gente tinha poço para guardar. _Ah! Tá explicado. Como era esse poço? _Meu avô, meu pai é que fizeram e foi custoso demais. O poço ficou cercado por pedras das grandonas mesmo. _Ele fez como? _ Meu pai dizia que foi usada uma ferramenta de nome ‘’Picola’’ e conseguiu aos poucos cavucar as pedronas até conseguir um veiozinho para desviar água do rio e assim construíram um tanque que conheci desde menino e onde os peixes pescados era jogados esperando compradores. _Vários tipos de peixe? _Sim, mas a maioria Jaú e Dourado. Cada peixão que dava gosto.
(PICOLA é um instrumento de ferro, em forma de cunha, com cabo, que os canteiros usavam para alisar a pedra, assim diz o dicionário. Canteiro é o que lavra a pedra esculpindo-a.)
PROFISSÃO PESCADOR
TONINHO passou ter a pesca como profissão e assim foi sobrevivendo. Era em noites claras de lua e estrelas, noites chuvosas, noites de tempestades, noites frias, remando contra a maré, nas correntezas da vida, e ele, no trabalho difícil para sustentar sua família, porém, trabalho prazeroso, é o que sabia e gostava de fazer. Saía por um dia e uma noite ou por semanas inteiras ou até mais, mas a pescaria era constante.
DIA QUE SALVOU DUAS VIDAS
_Toninho, algum fato que te marcou? _Sim, quando salvei a vida de dois rapazes da Pimenta, um desses dias que a gente é guiado por Deus.Decidi que não ia pescar na represa naquele dia,tava gripado,mas tive que ir fazer um favor para um amigo e de canoa,então,já de tardezinha,vi de longe figuras que não sabia o que era,ouvi um grito,quando cheguei, dois rapazes,já sem força nenhuma e com cãimbra,fazia horas que estavam agarrados esperando por um milagre.Fui guiado para salvar a vida deles e isso me fez muito feliz.Dormiram aqui em casa. Ficamos amigos.
O MERGULHO QUE FEZ FELIZ UM AMIGO
_Algum mergulho especial? _Especial demais, na Ponte Melo Viana o Jorge Zacarias todo pancoso deixou cair seu raibã,foi pro fundo, óculos muito chique e desesperou.Mergulhei, cheguei no fundo,dois zóios me olhando.Peguei e ele ficou muito feliz e agradecido.Saiu dali todo bonitão de óculos escuros.
A MUIÉ FICOU SEM SAIA, MAS LEVOU OS PEIXES
ERA a Dade, o amor do Toninho que pescou com seu loiro também muitas vezes de canoa nessas águas, diz ele que teve um dia que pegaram tanto peixe, mas tanto, que apavoraram para juntar, daí a Dade arrancou a anágua, aquela saia branca que as mulheres usavam sob a saia principal, fez isso para ajudar no carregamento. Ia enchendo a anágua e levando.
ALGUMA PESCA FORA DA REGIÃO, TONINHO?
ELE disse que uma ficou na saudade, um passeio belo, divertido e bem longe, na Ilha de Bananal, foi ele, o Carlinho do São, o Walquires Tibúrcio e Frank Tibúrcio, um passeio dos melhores e ele foi como responsável pela cozinha. O pescado era de Pirarucus. A foto registra o passeio. ---------------------------- Uma semana depois da postagem, acrescento os nomes que estavam na pescaria do Rio Araguaia e que o Toninho na hora não citou: Batista, Gordinho, Rumbudo, Dr. Marcelo, João Dutra, Ênio Tiburcio, Elias da Gera, Carlinhos do Itamar, mais um amigo do Ênio de Uruaçu. ----------------------------
TONINHO E SEU AMIGO DO CORAÇÃO
SEU AMIGO DO PEITO foi o Dr. Marcelo José Gontijo Borém, o nosso médico por tantos anos. Era na casa do Toninho que ele se sentia feliz e era lá que estava sempre. Os olhos do Toninho enchem d’água só de falar do amigo que foi pro céu. A cidade sabia do carinho e respeito que havia entre eles. Toninho disse que a casa boa que tem hoje, no início teve ajuda do amigo que lhe emprestou um pouco para pagar se pudesse e quando quisesse.
POEMA DO PADRE RONALDO PARA ILUSTRAR
Quando secar o rio de minha infância Quando as imagens se apagarem de minha memória Quando não restar sequer a esperança Que perspectiva terei de minha história?
Quando secarem as lembranças do passado Experiências de amor, carinho e paixão Quando sentir a ausência do ente amado Quando falhar a linguagem do coração
Então galoparei nas asas do vento E na ânsia de encontrar pleno sentido Procurarei resgatar todo pensamento Me darei conta de que valeu a pena ter vivido.
ENTÃO, guapeenses, TONINHO é sempre o nome que surge quando o assunto é PESCA. Hoje além dos que pescam por divertimento temos um que fez da pesca profissão no Lago de Furnas, o Fábio do Pé De Pato, sai cedo e volta de tardezinha.
TERMINANDO, o Toninho conta que viveu lá no Salto do Rio Sapucaí muitas noites de violas e cantoria em noites calmas, tendo teto de lua e estrelas, além de muita inspiração. Hoje tem 80 anos de causos, é aposentado, fica só em casa quieto porque tem problemas de saúde, mas diz que carrega muita saudade e manda abraço para quem vai ler.
Nossos aplausos ao grande pescador! Nosso abraço ao Toninho Cavalhada! Um salve para D.Laura sua mãezinha que estava sempre a esperá-lo! Viva ele e viva tu e viva o rabo do tatu!
(Escreve aí no comentário de pescadores que você conhece.)









