VALE A PENA VER DE NOVO? Claro que vale!
A HISTÓRIA MOLHADA DA FAMÍLIA DA TEREZA PIO E VICENTE COELHO
Antônio Pio tinha uma olaria na Cidade Velha, Margarida era costureira, eram pais de Maria, Gêra, Toim Pio, Tereza, Mariana e Zé Costela. Os filhos já crescidos, Tereza já moça bonita, alegre,simpática,conheceu o seresteiro Vicente Coelho, moço bão, formoso, tocador de violão e sapateiro.Veio de Piunhi para trabalhar na sapataria do Evaristo Teixeira, e entre serenatas, do namoro ao casamento foi um pulo.
Tereza ajudava o marido, fazia permanente, penteados em moças, em noivas e fazia festas, bolos, doces. Assim foi no casamento de D.Zulma e Newton Prado, quando foi ela responsável. Nasceu Afrânio, nasceu Cristina, Tereza por algum tempo tocou um restaurante de meia com o Jorge Zacarias e moravam no fundo do prédio. A vida seguia em ordem, o casal criando os filhotes felizes, coradinhos,brincando pelas ruas.
O QUE MUDOU? TUDO.
As águas de Furnas chegaram e com elas muita tristeza,angústia, desespero para todos e para eles não foi diferente, perderam o rumo de tudo. A família ficou sem casa, sem trabalho, sem dinheiro e com duas crianças.Fazer sapato para quem se nem ruas tinha para andar e nas que sobraram ou nas novas ninguém tinha vontade de andar,nem dinheiro para comprar.Fazer festas e penteados para quem se tudo virou tristeza.A palavra festa e alegria ficaram submersas.Moraram algum tempo em local ajeitado pela prefeitura,em dias totalmente cinzas, na maior pindaíba,até que surgiu um caminho, Vicente fichou em Furnas para trabalhar lá no Estreito.
A MUDANÇA DE CAMINHÃO
A gente imagina um caminhão parado e móveis colocados,não é? Mas, não foi assim,não foi uma mudança comum. Foi bem diferente e um pouco mais triste. Venderam o que tinham a preço de nada, e foram de carona em um caminhão de mudança, mas só de gente .Pessoas tristes em uma mudança triste. O que carregaram? Somente o necessário do necessário, panelas,roupas de vestir e roupas de cama. Roupa de vestir pessoas quase nuas de esperança, lençóis para deitar corpos cansados de sofrer o choque de uma dor repentina e travesseiros para molhar de lágrimas. Lágrimas de saudade, de desilusão.
A NOVA MORADA
Não encontraram no Estreito, faltavam casas, mas o violeiro nosso, o Toin Loreta, mocinho ainda e que já tinha arrumado a carona pra eles, fez mais, levou a família do Coelho para uma roça,lugar onde sua mãe já estava morando com seus irmãos, bem pertinho do Estreito e ela, então, arrumou serviço também para Tereza na casa da fazenda, arrumou uma casinha de morada pra eles e Vicente,coitado, ia e vinha todos os dias.Assim viveram por lá tentando uma vida digna.
COMO CHAMAVA A ROÇA?
A roça chamava ''Amargoso''.O nome não fazia diferença, pois amarga já estava a vida.A sobrevivência não estava fácil, depois de tempos foram morar em Itumbiara, tentar melhorar.E lá aconteceu o milagre. Vicente Coelho GANHOU NA LOTERIA. Isso.Foi premiado.Que festa!Que alegria!O bilhete da sorte despertou a esperança do casal e foi um bom dinheiro.
QUE ITUMBIARA QUE NADA!
A Cristina disse, ‘’a gente queria o Guapé e viemos passar uma temporada na casa da Vovó Margarida, dois meses gastando, em nossa cabeça a gente tinha ficado rico, meus pais estavam felizes,achavam que estavam bem de vida, foram tantas dificuldades que aí até minha mãe ficou muito metida, pra nós era muito dinheiro.kkkkkkkk...O tempo das vacas magras tinha acabado, para mim e Afrânio a gente era milionários de verdade, comprava bala, picolé, doce sírio, maria mole, suspiro, a hora que queria.Roupas novas, sapatos novos, no maior capricho.kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk...
A Cristina disse,''Meu pai,tão elegante, de calças novas de linho, camisas muito alinhadas, minha mãe com várias trocas novas de bonitos vestidos.Nossa! A cara da riqueza.Nossos dois meses em Guapé na casa da vó, acho, não,tenho certeza, foi porque minha mãe queria era mostrar o tanto que a gente estava cheio dos dinheiros, ela estava muito metida, esnobando, mostrando, porque saímos numa pobreza de dar dó. Aí tudo a gente comprava a vista.Kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk...Acho que essa temporada,além de ter sido para matar a saudade, foi para exibir nossa melhorada de vida.Kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk...’’
E O RESTO DA HISTÓRIA?
Continuar no Guapé não dava ainda, se demorassem o dinheiro voava.O Vicente entrou em prosa com o Jorge Zacarias e soube que em frente a sua pastelaria, na Av.Antônio Carlos, em Passos, estava a venda um hotel no jeito e comprou com o dinheiro da loteria, Hotel Brasília, e lá foram morar e lá ficaram um bom tempo, mais tarde, já com o casal de filhos crescidos, resolveram morar em Ribeirão Preto.Mais uma mudança.Para melhor.
E A VOVÓ DE CABELOS BRANQUINHOS DE COQUINHO... A D. MARGARIDA?
Gracinha de Margarida do Antoin Pio! A querida vovó virou anjo, deixou sua filha companheira, a Maria, ficou a casa de herança, Vicente e Tereza compraram as partes dos herdeiros, deixaram em Ribeirão os filhos já casados, Cristina com o Carlos, Afrânio com a Nice. Picaram a mula de volta e decididos não mais saírem da terrinha.Maria continuou na casa.Era muito amada.
Aí,sim, o violeiro tocava feliz e como! Músicas do Sílvio Caldas, Orlando Silva,Noel Rosa,Nelson Gonçalves...Na avenida movimentada, o que não faltava era muita prosa na calçada, passava um, passava outro, os causos rolavam, muita visita,naquele tempo usava, muito cafezinho, muita serenata e a espera dos filhos nos feriados.E o tanto que eram queridos!E o tanto de cumade e cumpade...A casa tinha uma portinha estreita, mas entrava tanta gente!
Lembro-me muito dessas visitas na casa deles e na nossa, aconteciam nos feriados quando os filhos vinham, aí o Vicente pegava o violão e papai a sanfona e a casa virava alegria.As visitas já aconteciam quando moravam fora e vinham passear e continuaram com a volta deles.Um detalhe,os irmãos moravam perto,menos a Mariana que casou em Nova Barra.
E O VIOLÃO?
O violão um dia ficou em silêncio, o bondoso Vicente virou anjo. Ficou na casa a Tereza e a Maria. Vinte dias depois a Maria bateu asas também. Tereza ficou com suas saudades e cercada de carinho até o dia que virou anjo também. Cristina e Afrânio com suas famílias vieram morar em Guapé. Derrubaram a casa e fizeram um cômodo de comércio para gráfica e papelaria.Ela tem um casal de filhos e ele também.São avós.
PALAVRAS DA CRISTINA
‘’Hoje estou há um tempo em Varginha e sempre construindo e vendendo, agora terminando um predinho para voltar de vez pra minha terra querida onde descansarei até o dia de ir morar com os meus no céu, onde certamente os encontrarei...kkkkkkkkk...E a alegria de voltar a viver novamente em Guapé.’’
A escritora de dois livros, Cristina Coelho, descreveu a mudança em forma de poesia:
A MUDANÇA
A cidade submersa ficou para trás... Na boleia do caminhão velho coube mãe e filha Na carroceria dois sacos, um de roupas e um de panelas juntos o pai e o irmão. Poeira no rosto, frio nas pernas, a merenda: pão de queijo com linguiça. A chegada à roça não foi de alegria... Teriam que morar de favor na casa do patrão Um quarto com cama de varas... Os buracos no telhado mostravam a lua. Um frio cortante invadia frestas e gretas Naquele tempo havia um grande amor entre eles que aquecia. E uma esperança de encontrar um caminho... Um trabalho, uma casa... Um novo ninho.
(Cristina Coelho)
..... ...... ...... ...... ...... ...... ...... ...... ...... ...... ...... ..... ...... ...... ...... ...... ..... Um salve para D.Margarida e seus filhos... Maria, Gêra, Tereza, Mariana, Toin Pio e Zé Costela! Um salve para o violeiro, seresteiro Vivente Coelho! Um salve para Afrânio e família! Um salve para a família de minha amiga escritora e poeta Cistina Coelho!









