Texto: MarceloLagoa
O QUÃO SOLITÁRIOS PODEM SER NOSSOS PENSAMENTOS?
Hoje no almoço me foi servido “Bife à Milanesa”! E me trouxe à lembrança algum dia há muito tempo passado, quando na idade dos meus seis ou sete anos viajei de Minas a São Paulo, nesta mesma época, pra passar as férias com meus avós.
Adorava a casa de minha avó! Vovô Adolfo segurando na minha mão, todos os dias às sete horas da manhã me levava a passear. Passávamos frente a um grande terreno, que exalava cheiro de eucalipto, que nesta hora do dia abre-se em flor pra receber as abelhas. Invariavelmente ele repetia um assunto (e isto ele me dizia todos os anos em que passei férias com eles, quando até o eucaliptal ele me conduzia) sobre a idade jovem do meu tio, seu filho, que sofrendo bronquite, era conduzido por vovô aos eucaliptais todos os dias, para se beneficiar daquele ar purificado da manhã!
Vovó Maria tinha um compromisso na Igreja, onde ajudava na limpeza dos bancos, pisos e paredes daquela Casa Santa, em toda sexta-feira. Era um trabalho voluntário, sem remuneração financeira, pelo simples prazer de servir, que vovó na bondade de seu coração se dirigia até a Igreja, para junto de outras senhoras velhinhas executarem tão nobre ofício (elas diziam assim: “Limpamos o pó do sapato dos santos e dos humildes, deixado por aqueles que aqui vieram, quando vieram em busca de um conforto espiritual”). Vovó também me levava com ela, para vê-las executando a limpeza daquele bonito salão. Na hora do lanche que era servido às senhoras, lembro-me perfeitamente que certa vez serviram-nos com suculento prato de “Bife à Milanesa”. Foi a primeira vez que experimentei desta deliciosa receita! No refeitório, a conversa loquaz da “Irmã Zéfa” (Joséfa), “Irmã Rosa”, “Irmã Páscoa” (Pascoalina), “Tia Loide”, e claro, minha querida “Vovó Maria”. Eu, o mais pequeno e insignificante inseto, o “bendito fruto entre as mulheres”, única criança a estar por ali, no dia de limpeza na Igreja! Dirigia meus olhos gulosos para o prato daquela iguaria a fumegar sobre a mesa, desprendendo o delicioso aroma do Bife à Milanesa! Então finalmente, serviram-me de um bom naco de carne, e dessa regalia jamais me esqueci! Foi a primeira vez que comia um belo bife preparado assim!
Então fico a pensar: Meu avô… minha avó… Irmã Zéfa, Irmã Rosa, Irmã Páscoa, tia Loide… Onde estão?
O Mundo é polvilhado de tantas pessoas! São bilhões e bilhões de indivíduos, vivendo e respirando neste exato momento. Mas quem, além de mim mesmo, estaria neste momento a recordar de tão ditosas lembranças? Ninguém, pois todos aqueles já dormem seu último sono, no último catre de seus descansos.
Hoje pelas redes sociais compartilhamos fotos, palavras, vídeos e tantas coisas mais! Aqueles que vivenciaram um evento, recordam-se dele ao ver tal lembrança nas redes compartilhada! E os que não vivenciaram, então passam a conhecer aquilo que nunca viram.
Mas e as recordações que ficaram apenas na memória? O que fazemos com elas? Quando todos já se foram, e fica apenas você a recordar uma vida? E você olha à sua volta, compreendendo que finalmente está só, revivendo algo que ninguém mais está aqui, pra recordar contigo. É uma recordação solitária.
Então nesta hora compreendo aquele olhar parado num horizonte infinito, que flagramos às vezes na feição dos mais velhos: Decerto é o vagar do pensamento nos labirintos da mente, buscando talvez mais alguém dentre os mortos, um alguém com quem compartilhar velhas lembranças…





