13 de março de 2016

TEXTO DE MARCELO LAGOA

A Virgem do Monjolo e o Calabouço Há muitos anos, no tempo que não existia rádio nem televisão, havia lá pros lados do grotão um sítio encravado entre as serras, isolado de todo mundo, onde vivia uma

TEXTO DE MARCELO LAGOA

TEXTO DE MARCELO LAGOA

A Virgem do Monjolo e o Calabouço

Há muitos anos, no tempo que não existia rádio nem televisão, havia lá pros lados do grotão um sítio encravado entre as serras, isolado de todo mundo, onde vivia uma família.

“Seo” Antônio era pai de três filhos: A Maria Celestina, Toninho e José Carlos. O sítio compreendia as terras baixas ao pé da serra e se estendia até o córrego que serpenteava no vale. A família plantava milho e vivia da produção de fubá, que “Seo” Antônio levava pro Arraial todo fim de semana. Toninho e José Carlos ajudavam o pai na lavoura e cuidavam do carro de boi, o único meio de transporte para o fubá até o Arraial. A Maria Celestina, uma jovem adorável e bonita, cuidava dos afazeres domésticos, da criação de galinhas no quintal e da costura e remendo nas roupas de seus irmãos e pai. Era tão linda quanto o raiar do Sol! Era a alegria daquela casinha pobre e isolada do mundo.

Do outro lado do córrego, uma escura mata ocultava toda sorte de árvores, desde aquelas de madeira macia até as mais nobres, que se usam para fazer móveis e ferramentas. Dentre elas havia a Cajarana, uma árvore de madeira bonita, macia de se trabalhar, quase sem nós e de cor vermelho-vivo. Os sitiantes gostavam de usar a Cajarana para construir Monjolos, pois sua madeira – embora macia – era difícil de apodrecer. Em contato com terra úmida, resistia por muitos e muitos anos, como se fora ainda madeira viva.

Certo dia “Seo” Antônio chamou os dois filhos moços para atravessar o córrego e cortar uma imensa árvore de Cajarana, para construir um novo Monjolo, pois aquele do sítio já era muito antigo, do tempo de seus avós, e estava já muito desgastado, pois trabalhava dia e noite sem parar.

Naquele dia, Maria Celestina ficou sozinha em casa, enquanto seu pai e os dois irmãos entraram na mata pra cortar a árvore.

Todo mundo sabe, o Monjolo é uma ferramenta rústica e simples: Consiste de uma tora onde se cava o cocho numa ponta e na outra encaixa a “mão de pilão”. Deve ser sustentado por uma base firme, muito firme, que vai enterrada ao chão, num buraco de quase dois metros, para que o monjolo não caia nem pende de lado por causa da água ou do seu próprio peso.

Sua construção é simples, mas a instalação é difícil. A ferramenta deve ser instalada de modo a resistir por muitos anos à chuva, à terra úmida e aos próprios solavancos que recebe quando está trabalhando.

A base – como eu já disse, deve ser enterrada bem funda pra não se mover. Uma vez enterrada, nem quatro homens conseguem tirá-la do lugar. Deve ficar ali “pra sempre”.

A complicação se dá quando vai fazer o buraco pra enterrar a base, porque logo abaixo tem o escoadouro d'água que se derrama do cocho. E esse escoadouro recebe água dia e noite, mesmo quando o Monjolo não está trabalhando. Ele deve ser bem calçado com pedras, pois a violência da água pode desbarrancar a terra e derrubar o monjolo. Fazer um buraco pra instalar a base é sempre uma arte, pois o escoadouro ao lado pode ceder a qualquer momento e soterrar alguém, pondo em risco a vida do escavador.

A solução é fazer a instalação por etapas, desviando a água e deixando secar o terreno. Depois, calça muito bem o escoador com pedras grandes, pois seu peso vai ajudar conter a terra, caso o buraco comece a desbarrancar. Depois, cuidadosamente se faz o buraco que vai abrigar a base do monjolo. Esta é a parte mais importante e também a mais difícil. Uma vez instalado o Monjolo, desvia-se outra vez a água pra bica, que por sua vez vai encher o cocho, fazendo o monjolo trabalhar.

Tudo isso “Seo” Antônio sabia, e sabia também que sem ensinar, ninguém conseguia fazer um monjolo trabalhar. E naquele dia, como era tradição dos antigos, “Seo” Antônio ia ensinar o segredo aos seus filhos, pois na roça o aprendizado vai passando de pai pra filho. E “Seo” Antônio estava feliz por isso!...

FIM

“Ué!!!” Você nesse momento deve estar se perguntando: “Acabou a história? Cadê a Virgem? E o Calabouço? O que aconteceu com a Maria Celestina, enquanto seu pai e seus irmãos foram cortar madeira do outro lado do córrego?”

Bom, eu lhe respondo: Virgem é o nome do pau que serve de base pro Monjolo, é a madeira de Cajarana que vai fincada firme no chão e que não pode se mover! Calabouço é o nome do escoador, que deve ser calçado de pedras para filtrar a água e não deixar o Monjolo desbarrancar!

O nome das outras peças são: Balancete ou tora, Eixo (que liga o Balancete à base) Cocho – que é escavado no balancete, a Mão de Pilão e Pilão (a cuia onde se deposita os grãos de milho). Quem me falou esses nomes foi o Sr. José Dias, um homem de 84 anos, que já morou em Minas e cujo pai e avô eram fazedor de Monjolos.

E a Maria Celestina? A Maria eu não sei. Só sei que arranjava um namorado em cada festa do arraial e era mãe de três filhos.

E o texto – ora, o texto, embora pobre e vazio, este serve para mostrar como o TÍTULO do TEXTO interfere na escolha da leitura. Se no começo ficasse claro que eu falaria das peças de um Monjolo, ninguém leria a história, não é verdade?

Marcelo Lagoa 11 de Março de 2016

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