‘’SENHORA DO DESTINO’’
Nome De Novela e simplesmente, IOLANDA.
POR ONDE ANDA IOLANDA?
HOJE não mais por toda banda, mas na varanda, no terreiro, na sala, no quarto, porém sempre em Guapé, e há nove décadas escrevendo sua história de vida, uma linda vida. Filha de Zé Garcia, irmã de Mariquita, Helena, Angelino, Ivone, Isoleida, Zé Brinquinho, Paulo Garcia e Chico Garcia. Mocinha bonita, trabalhou desde jovenzinha, começou como babá.
UM DIA me contou que não confia em babá nenhuma e que boba da mãe que deixa filho com elas, porque com 13 anos pajeava a filha do Agripino, enquanto as colegas esperavam por ela na praça, aí a menina deu um febrão danado, D.Ari pediu que ela ficasse até mais tarde, até a febre ceder, ficou, mas daí ela correu na horta, catou as folhas, fez um tanto de chá escondido, deu tudo pra menininha beber, daí cobriu-a com cobertores, a menina soou de bica, a febre abaixou e ela, então, saiu toda apressadinha pra passear. Ê,Iolanda levada!
E O CASAMENTO?
Casou com Luiz Vitalino, foi muito amada pelo sogro, foi morar na roça e teve o primeiro filho,o Jayro Luiz, daí o menino danou a perrengar, remédio de horta não regulava o intestino, foi enfraquecendo numa diarréia sem fim e voltaram pra cidade, do jeito que tava o doentinho, só perto do médico pra ver se o fraquinho arribava, ver se o menino vingava.
VINGOU?
Vingou. E vingaram mais duas meninas nascidas depois, a Mirtes Helena e a Marilda Helena. A casa de morada era na praça antiga, juntinha do Clube dos 70, meio afastada. As crianças cresceram brincando por ali, na praça, ruas, beira do córrego.
A DONA DO PEDAÇO
IOLANDA sempre foi, a guerreira, a talentosa da cozinha, do forno, dos doces. Fazia de tudo e mais um pouco. Não conheço uma mulher que tenha trabalhado tanto quanto a Iolanda.
Tudo ela, festa de casamento, de aniversário, jantares para políticos, foi dona de restaurante na Cidade Velha, reinou absoluta no movimento época de Furnas.
E SUA HISTÓRIA COM AS ÁGUAS?
As águas chegaram e molharam tristemente sua vida, despediu-se como tantos que partiram ou ficaram, ela ficou, enxugou os pés e caminhou, vencendo sempre. Em sua nova casa abrigava a família, servia comida, alugava quartos, assim foi.
QUE MAIS?
-Alugou o casarão do Tote, lá teve sua famosa pensão, -Construiu o restaurante Casa Branca e nele acontecia o encontro de todos, -A cabine de telefone que existia em Guapé ficava no restaurante e por lá, -Servia churrasco como ninguém, foi sucesso durante anos, -Inesquecíveis o arroz de forno,tutu,biscoitão, -Enfeitava as mesas emendadas para jantares, -Época de pamonha é um sucesso, nunca erra a mão, -Época de goiaba, seus tachos enormes oferecem muitos doces e ela serve os guapeenses daqui e de fora. Ela tinha o prazer de levar quilos e quilos de goiabada para a capital, sua goiabada cascão sempre foi sucesso. Até hoje comanda os tachos de goiabadas e ainda sai de carro por aí nas estradas indicando goiabeiras.
E SEU CORAÇÃO?
Gigante. Suas mesas fartas tanto alimentava ricos como pobres. As portas da casa abertas sempre acudindo necessidades. As mães que pra ela trabalhavam levavam pencas de filhos sempre alimentados por ela.
FICOU NA LEMBRANÇA...
-A Nininha da Sá Ana Gardina com o seu Zé Antônio esgarranchado na cintura por tanto tempo e por tanto outro tempo trabalhou com ela. -A Maria Baixinha, gordinha, engraçadinha com seu rabo de cavalo balançando pra lá pra cá. -Piedade do Toninho Cavalhada. -A bonitona Mariana que foi sempre acolhida quando jovem. -O Kiko,sempre de carinha alegre. -O Waltair que ficou com ela até mocinho. -A Marlene do Raimundão que foi escora da patroa enquanto precisou. -A Emilinha teve também seu papel na pensão. -A Fia irmã da Emilinha enquanto aguentou ajudou a patroa, era casada com o Periquito que também trabalhava com a Iolanda. -O Periquito muito amado pela Iolanda e seu filho. -Ah! Era o Periquitinho que cresceu lá. Fazia serviços de rua. Até hoje ela fala nos Periquitos e chora que chora. -A Tiéca! Ê,Tieca! Foi sempre acolhida por tantos anos, era muito popular na cidade. Foi embora de Guapé. -A Sabina irmã do Zé Amorim que era viúva, sofrida, ajudou tanto e levava os três filhos já que nem tinha com quem deixar. O Cirinho fala que comia demais, deu prejuízo.
Diz o Cirinho que era assim...
_Cirinho, vai lá entregar as badejas de salgado no comércio. _Eu levo uma, venho e busco outra pra não cair.
Ele ia, só que não aguentava e sempre comi um ou dois. _Iolanda, tem reclamação,faltou salgado. _Pelamordedeus! Elas não contam direito. Ô, meu Deus! Ninguém tem atenção,já falei, já pedi, eu não aguento isso.
Leva o que falta lá,Cirinho.
Foi tanta reclamação que ele trazia de faltar salgado que a Iolanda descobriu e só assim parou de ficar brava com as cozinheiras.
O CIRINHO disse: _ A Iolanda não deixava a gente sem comer carne, mas eu sempre queria mais, aí a cozinheira ficava com dó e escondia mais um bife por baixo do arroz.Um dia o prato caiu e ela descobriu.Fez um baruião... _Não dou conta desse menino, não tem nada que enche ele, tem de deixar uma vaca só por conta dele.Parece um saco sem fundo.
E A LOJINHA DA IOLANDA?
ENTÂO, nunca sossegou e junto tinha também picolé. Até sacoleira no Paraguai ela inventou de ser. Fazia as longas viagens sem se cansar, uma saúde de ferro, chegava e parecia ter viajado dez quilômetros. O pior é que ela colocava as netas pra tomar conta da lojinha e a chefe era a Ariane. PalamorDeDeus! Vendiam fiado, não anotavam, chupavam picolé dia inteiro e dava pra molecada. A lojinha só deu prejuízo.
E A IOLANDA GANHOU MUITO DINHEIRO?
MUITO, mas sempre saiu pelo ralo. Nunca soube lidar com sua movimentação financeira, nunca foi ambiciosa, seu prazer sempre foi servir, ver pessoas satisfeitas, mas reconhecidas, a gente sempre diz, seu prazer sempre foi ser rodeada de muita gente, isso sim pra ela era riqueza.
IOLANDA NA RIQUEZA E NA POBREZA?
NAS duas escalas. Para ela pobre e rico é uma coisa só. Sua simplicidade sempre notada. Tanto vai em velório de rico como de pobre e o que faço questão de registrar é que ela, enquanto pode trabalhar, além de ajudar pobre na doença, nunca deixou um velório sem quitanda, sem café.
E OS CONVITES FESTIVOS?
PONTUAL. Comparecia e até hoje só é ausente tendo motivo justo, alegra sendo lembrada e se por algum motivo de esquecimento acontece, fica magoada. Participativa, disso faz muita questão, grata por ser lembrada e nunca se acha menos ou mais, sempre é ‘’Iolanda’’.
E SEU JEITO DE FALAR?
ESPAROLADA. Voz alta, muitos gestos, sempre falando o que quer e em tempos passados, época de política defendia com garra seu partido, suas opiniões, mais ainda quando seu querido genro Reisinho era o candidato. Barulhenta, mas sempre educada. E que garra! Iolanda! Sempre Iolanda!
E A IOLANDA HOJE?
PAROU com pensão, restaurante, loja, quitandas, continua sua vida mais quieta, tem problema sério na vista, perfeitamente lúcida, conta suas lembranças com detalhes, sabe tudo de Guapé. É como diz o Walquires Tibúrcio, não existe a história de Guapé sem Iolanda.
E O QUE ELA MERECE?
DO povo de Guapé muitos aplausos e aplausos de pé. Muita gratidão. Muito carinho. Muito respeito.
E DOS FILHOS E NETOS?
ENTÃO, deles merecem todo amor e gratidão do mundo, uma velhice digna, rodeada dos melhores afetos, merece viver sobre tapetes de flores. Foi mãe e pai, foi tudo e mais um pouco.
Quantas bocas sentiram os sabores da cozinha da Iolanda? Quantos hóspedes foram abrigados em sua pensão? Quantas pessoas amadas pelo seu coração? Quantas saudades guarda com emoção?
Toda nossa gente deve aplaudir de pé IOLANDA.
AQUI no ‘’Bão De Prosa’’ um breve relato do muito que foi e é sua linda vida.
PÉTALAS DE ROSAS PARA IOLANDA, A SENHORA DO DESTINO.









