POSTAGEM(3)
''SALÃO DE BARBEIRO'' EM GUAPÉ SÉCULO XX
Texto:Wenceslau Ávila
ZÉ NICOLAU – O Barbeiro da Jacutinga! JACUTINGA tinha uma igreja, uma casa paroquial, do outro lado da praça, três ou quatro ruas, 3 vendas (a do Realino, do Chico Vicente e a do Zé Rosa). O cemitério da Jacutinga, ao invés de ficar em algum morro, ficava ao contrário na descida em direção a Passos. A estrada Guapé-Passos passava por dentro da Jacutinga. A barbearia do Zé Nicolau era a ultima casa, do lado direito saindo da Jacutinga, uma centena de metros antes do cemitério, que ficava a esquerda. E a casa do Zé Nicolau, fosse um bar, seria o Bar do último gole!
ATÉ MEUS, sei lá quantos anos, minha mãe cortava meu cabelo* e apesar da sua dedicação ficava cheio de “caminhos de rato” e lá pelos 7 a 8 anos virei “freguês” do Zé Nicolau, como meu pai, o que em geral acontecia depois das missas e das prosas com os amigos, na praça da igreja. Por algum tempo minha vó, Maria Cândida foi dona (e morou) na casa da esquina, perto da casa paroquial e na direção da casa do nosso barbeiro e era lá que meu pai amarrava o cavalo. Acabado tudo, meu pai montava e eu na garupa, o que por longos anos foi no cavalo preto, aquele que tinha um caroço ou quisto no meio da barriga (ali mesmo onde a barrigueira devia passar pra prender o arreio). Logo descíamos do cavado e entravamos na barbearia do Zé Nicolau, que costumava já estar bem cheia de homens esperando para o corte de cabelo ou mais comum ainda, fazer a barba, com navalha.
DA JANELA do lado de baixo, era possível avistar a serra das Arnicas, e mais à direita o Mato das Antas, muito próximos de onde ficava nossa fazenda, a Fazenda dos Rodrigues. O ambiente da barbearia, diferente dos demais nas outras casas, era muito especial. Parecia-me algo mais organizado, onde cada coisa estava em seu lugar, como por exemplo um instrumento para afiar a navalha, uma espécie de chaira, com couro de ambos os lados e cabo de madeira, ou ainda o repositório dos restos de barba raspada, molhada na espuma que era depositada sequencialmente, de cima para baixo naquela tira de papel e que, uma vez cheia era lançada pela janela. Pelo chão, de tijolo batido, cabelos de todos os tipos: longos, curtos, enrolados, lisos e muitos capuchos por todos os lados.
A cadeira era um verdadeiro trono onde havia couro, em alguns lugares um metal brilhando e no lugar dos pés uma espécie de borracha, na qual eu subia para alcançar o assento e na frente, pendurado na parede algo raro, muito raro em nossas roças, um espelho – nem grande nem pequeno, do tamanho suficiente para eu me ver e até mesmo fazer umas caretas para mim mesmo, enquanto o senhor Zé Nicolau, corpo meio avantajado e quase sempre de camisa branca, ficava parece que treinando os dedos com sua fantástica maquina de cortar cabelo, como se quisesse já chegar com ela na minha nuca, já aquecida, como se pré-aquece um forno antes de colocar o bolo lá dentro.
COM A MÃO esquerda no alto da minha cabeça ele me fazia encostar o queixo no peito e engatava a marcha, lá no alto das minhas costas e fazia a maquina deslizar até o topo da cabeça, como se fosse a caterpilar (ou se preferir a maquina de esteira) do Colombo quando ia raspando a estrada de Passos, morro acima, lá pelos lados do Campo do Zé Baio. E quando chegava lá no topo da cabeça o Zé Nicolau com um gesto certeiro “pinchava” a moita de cabelos que ia se juntar as dezenas de outras pelo chão, aumentando a variedade de tons e de formas das nossas madeixas! A super máquina, empunhada pela direita do Zé Nicolau, de inicio quase gelada, a ponto de me fazer arrepiar, ia ficando quente, de tanto subir e descer, numa movimentação quase erótica e, tudo encima da minha cabeça.
SÓ QUE tinha um detalhe ou como dizer, uma ciência: raspar a cabeça é fácil, difícil é fazer o corte da moda, difícil mesmo é acertar os contornos, melhor dizendo, a reta ou as retas que circundam o topete, próprio dos meninos de calça curta da época. Não faço a menor ideia dos parâmetros da época para definir a extensão do topete de cada um mas imagino que tudo era uma questão de tamanho da cabeça – cabeça grande, topete grande – se bem que de vez em quando aparecia cada um, tão pequeno, mas tão pequeno que mais parecia uma moita de gabiroba no meio da invernada! Só não me lembro se, depois da cabeça “lambida”, era passado alguma coisa, como eu sempre via passar nas bochechas e no queixo daqueles que faziam a barba.
EM TEMPOS de sol quente, ter a cabeça pelada era um alívio, mesmo porque um chapeuzinho de palha era inseparável. Em tempo: foi também ali, na frente da casa do barbeiro Zé Nicolau, que em um inicio de tarde modorrenta e sem ninguém por perto a não ser o Sirvo, meu colega de grupo, na volta pra casa, que “inventei” de subir no para-lamas de um Ford28, ali parado e ao ver que tinha uma chave no contato, por pura curiosidade e sem entrar no carro torci a chave e não é que o bicho roncou? Felizmente só deu um arranque e sobretudo muito susto e energia para uma carreira mais rápida que a descida da estrada de Santos pelo Roberto Carlos. Foi, só lá pela altura do cemitério, já na metade da descida do morro, que com as línguas pra fora (éramos dois), paramos para recuperar o fôlego. *nas roças raspar a cabeça, mais do que estética era uma questão de higiene – encontrar “lêndeas” em uma cabeça sem cabelo ou quase, é muito mais fácil de que em qualquer “gafurina”. Wenceslau Avila – jan-2017 “Da série “A estória que a história jamais iria contar”
(foto do Wenceslau menino e da Jacutinga na mesma época-em seguida as de hoje)









