19 de abril de 2016

PARA QUEM NÃO LEU QUANDO POSTADO

Wenceslau Ávila Era um fim de tarde calorento, saía da praça e seguia pela 3 de Fevereiro. Alguém descia quase correndo e trouxe a notícia: teve um desastre e morreu muita gente! Mas o que é “desastre

PARA QUEM NÃO LEU QUANDO POSTADO

PARA QUEM NÃO LEU QUANDO POSTADO

Wenceslau Ávila

Era um fim de tarde calorento, saía da praça e seguia pela 3 de Fevereiro. Alguém descia quase correndo e trouxe a notícia: teve um desastre e morreu muita gente! Mas o que é “desastre” ou o que é “morrer muita gente”?

Sem acesso a livros, jornais ou até mesmo radio, esses conceitos eram vagos na mente do moleque de 12 anos. Nem muito chocado, nem muito curioso, só prestava atenção nas vozes que iam aumentando pelas ruas, nomes aparecendo: no desastre tinha um frei, tinha o Paulinho, e tinha sobretudo o primo Divino, filho da Mariinha do Jucão.

Só me dei pela coisa, quando na minha mente foi gravada a imagem trágica, trazida por alguém, a do volante que entrou-lhe pelo peito. Agora sim: o volante da jardineira entrou pelo peito do motorista, o Divino, caçula da família e que conduzia o ônibus cheio de gente, voltando na tarde daquele domingo de sol, após um jogo de futebol em Ilicínia.

As rodinhas, as conversas, as pessoas; a cada instante aumentando os nomes dos desastrados, alguns mais conhecidos, outros nem tanto.

Agora sim, já tinha até um milagre: o frei havia sido encontrando caminhando desorientado, sem destino pela estrada, saíra pelo vidro! Outros tinham ficado presos e muitos, mas muitos mortos ou agonizantes; no final daquela descida, que na minha mente, pareceu quase a pique, interminável.

Desconhecedor de catástrofes, ausente das grandes misérias que povoavam o mundo, tudo aquilo, de imediato, me pareceu apenas uma trágica fatalidade. Não me lembro de pesadelos ou noites sem dormir, a única imagem mais forte foi a do volante “enterrado no peito”.

Quatro dias depois dessa tragédia, 04/01/1962, a maior em toda a história de nossa cidade, fui transmutado para outro universo, completamente diferente de tudo que eu conhecida ou tinha vivido até então: o seminário do Carmo do Rio Claro.

Os acontecimentos foram se acelerando: o ano seguinte já foi o da chegada das águas. De início a primeira etapa, onde o povo, ainda que incrédulo, foi ficando desorientado, ao ver toda aquela água que chagava mansinha, meio que de propósito, pra não assustar as pessoas, mas que da noite pro dia, engolia tudo.

No mesmo ano tudo foi virando mar: novos desastres, novas tragédias, histórias de salvamentos heróicos, até mesmo em helicópteros e uma movimentação absurda, poeirenta, de veículos, os jipes e os caminhões basculantes de Furnas, muitos nordestinos e a fuga das pessoas. Cada dia chegava a notícia de alguém conhecido que decidira ir embora: Pratápolis, Itaú, Passos eram os lugares mais procurados.

Já na Cidade Nova, muito tempo depois, o “monumento” da lembrança, foi implantado perto da grande caixa d´água, no final do campo de aviação: “a carcaça da jardineira” .

Curioso, quando pude, fui lá ver, com uma curiosidade quase animal, imaginei um pouco o drama de tudo que tinha acontecido naquele espaço, sem muita emoção, apenas curiosidade. Ficou uma boa década por là!

Mas aí o “desastre” já havia perdido muito da sua originalidade. Foi sair pelo mundo e descobrir que o normal é o desastre, o normal é a tragédia, o desamparo, as atrocidades das guerras (Anos 1960 -Vietnam, Guerra dos 6 dias, etc…).

De repente e sem mais aviso uma espécie de “síndrome Peter Pan”: não mais crescer pra poder ter direito a continuar vivendo na terra que eu sonhei e não mais na terra dos homens grandes! Foto do início de 1963, quando da chegada das águas (1ª. Etapa) nos fundos de uma fazenda no município do Carmo do Rio Claro – eu sou este que tenta se equilibrar sobre uma jangada no meio da imagem.

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— Soninha
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