PAISAGEM URBANA
ESSA linda e pacata cidadezinha cheia d encantos mil tem importado costumes. Muitos. É um trem danado! Tem trem tão dimudado! Se a gente botar reparo é num tantão de trem, mas, vou dar uma cutucada aqui só no trem que me sucedeu traisantonte e que me fez ficar matutando, olhando as casas das duas bandas da rua e fazendo comparações.
D PRIMEIRO a cidade era abertinha de tudo, quando armava chuva a gente dava uma cubada no céu de lá da represa, de lá da serra, calmava, isso porque pasbanda do Araúna onde nasci, chuva que arma costuma não atravessar para o lado de cá, agora, se a chuva rodeava tudo, caía, só não tinha apavoramento, as nuvens davam de querer desgarrar os primeiros pingos, a gente já apressava o passo e caso caísse pingão grosso,ou aquelas mangas de chuva a ''questã'' era resolvida na hora.Era facinho de nãomoiá.
A GENTE garrava a apertar o passo e embocava na primeira porta aberta, e até podia escolher adonde embocar,até aproveitava e já fazia uma visita. Agora dimudou demais, tráisantonte saí e não percebi a tribuzana que tavapacaí, dei uns duzentos passos, deu de cinzentar,dei de oiá pucéu da serra do Araúna,nem vi,tudo carregado, daí foi a conta de dar só mais duas passadas e era pingão grosso patudo quantébanda.Pavorei.
EU QUE vivo mais recolhida, estava fazendo exposição de minha figura aqui mesmo no espaço saindo da esquina adonde eu moro e garrei a caminhar dando já pra entrar no começo da Rua D.Leopoldina Maia. Aí começou aquela tribuzana d chuuuuva e eu fiquei doidia, isso porque garrei a procurar um lugar paesconder e não achei, investia numa casa, era muro.Investia noutra casa, era grade.Muro, grade, grade, muro, grade, muro.
VOU contar um trem,um trem custoso, fiquei nessa peleja tentando me esconder atéééééé adonde eu ia e não consegui entrar numa casa, num alpendre, numa garage.Ah! Não! Credo! Quando eu cheguei no domicílio d minha amiga Ivana da D.Esmeralda, arrumei um berreiro no portão, ela abriu, entrei, porém parecia uma cachoeira, ensopadinha.Ah!Não!
Ela destampou a gritar seu cônjuge:
_Que dó! Entra depressa. _Pressa agora? Molhar mais, como? _Por que não escondeu, não entrou numa casa? _Só se se pular grade, muro, tem jeito mais não. _Deixa os sapatos aí. _Ensopados e furados na sola também. _Calça esses chinelos do Dair.
_Quem é, Ivana? _A Soninha, tá ensopada. _Coitaaaaada! _Morre de medo de trovão e relâmpago. _Coitaaaaada!
IVANA subindo a escada...
_Vem cá, Dairzinho, ela tomou muito chuva, enquanto eu busco toalhas, cuida dela, vem cá e vai passando o rodo. _ Uai,Ivana, tá doidia,chamar ele pra me passar o rodo? _É no chão, coisa custosa. _No chão,lógico,alguma dúvida, Branca da D.Esmeralda? _Calaaaaaaada!
ELA DEU muitas toalhadas em meu cabelo e em minha roupa,mas, não aceitei trocar, mesmo pq roupa dela não me serve e eu não tenho medo d resfriado, mesmo assim, o cônjuge dela, depois d passar o rodo ''NO CHÃO'', garrou e pegou meus dois sapatos número 37, já bem rodados e com furinho na sola, encheu de jornal, ligou o vento do ventilador neles, aí ela esticou um pano no piso papodê eu pôuspé e assim nóisproseô, comeu empadinha esquentada no micro ONDAS, bebeu garaná sodinha.Ela até queria coar café,mas como sei que tem costume d coar café fraco,e eu gosto é forte,optei pelo ganará.
IVANA: _Come mais... _Não, sou d pouca comida. _Cê não gostou? _Comi seis.Sou d pouca comida. _Vou esquentar mais. _Ah! Cê que sabe. Esquentando te ajudo, mas sou d pouca comida. _Precisava esconder embaixo da mesa por causa de trovão? _Vc não sabe o q é medo de chuva. _Hoje vc passou aperto. _De tudo quanto é jeito,tô com a roupa grudada até agora. _Vou chamar o Dairzinho.Dairzinhoooooooooo... _Ô, carma aí,Ivana, né papassá rodo de novo,não, né? _Cê é maliciosa demais.
MUITO tempo depooooois, já sem tribuzana, sem trovão, já d noite,eu garrei, calcei o calçado, despedi da Ivana e cônjuge, e voltei olhando as casas que se fecharam para mim e pensando... É, tudo dimudado, Guapé cresceu,os problemas também, o pogresso chegou, e com ele os muros e as grades também.Ô, dó! Meu pai Itamar falava,''asfalto, pogresso, só vai servir pa desassossegar nóis." Tava certo.Desassossegou.
É ISSO aí, a gente quer o progresso, porém paga o preço, quem diria, até no Guapezinho as coisas dimudando aos poucos.
É SÓ.
Fuuuuuui....................
Em 2015






