O MESMO TEMA.
ESSE É UM TEXTO DO GUAPEENSE QUE VOCÊ DEVE LER-Kennedy Ávila Peres
NA ÁFRICA PODE - II kennedyavilaperes.blogspot.com.br
Se fosse vivo, Castro Alves se horrorizaria mais uma vez com as barbáries cometidas contra os africanos e o descaso ocidental com o que acontece na África. Concomitantemente ao ataque em Paris, que comoveu o mundo, cerca de duas mil pessoas foram assassinadas em Baga, uma cidade nigeriana perdida na selva, pelos animais, ou melhor, pelos homens, já que os animais são incapazes dessa atrocidade, do Boko Haran. Essas mortes, no entanto, não comoveram o mundo e quase não apareceram na mídia. Boko Haran, que significa, no dialeto local, “a educação ocidental é proibida”, é um movimento que protagoniza uma escalada de violência na Nigéria e em Camarões e pretende a construção de um Estado Islâmico na região, com a benção de Alá e aplicação da sharia. Ainda não se compara em magnitude ao genocídio de Ruanda ou aos mortos nas inumeráveis guerras civis na região. Mas, em atrocidade, já supera as milícias sudanesas ou os rebeldes da Libéria e da Serra Leoa, que se notabilizaram em mutilar seus prisioneiros. O Boko Haran mata, mutila, queima e sequestra meninas para servirem de escravas sexuais. Mas tudo em nome de Deus. No entanto, o Ocidente prefere fingir não ver o que está acontecendo, afinal é apenas a África. Mesmo os palestinos, os iraquianos e os afegãos merecem maior destaque e comovem mais quando são assassinados. Claro que não como quando morre algum europeu ou americano. Mas, em se tratando de África, onde tudo é permitido, não tem importância. A própria ONU retirou-se de Ruanda e permitiu que 800.000 pessoas fossem mortas a facão, enquanto discutia se se tratava ou não de um genocídio! Que são então 2.000 pessoas na Nigéria? Não concordo com aqueles que criticam a comoção gerada com o ataque à revista Charlie Hebdo em razão do pouco destaque dado ao massacre de Baga. Toda morte é uma morte, é uma morte, é uma morte. A indignação com o ataque em Paris merece a comoção que provocou. O que merece ser criticada é a indiferença do Ocidente para com os acontecimentos na África, não em contraponto ao “Je suis Charlie”, mas pelo que essa indiferença representa em si mesma. Em primeiro lugar, os mortos de Paris tem nome, tem retrato, tem história, enquanto os de Baga são apenas números. Como dizia Stalin, me repetindo, uma morte é uma tragédia, a de milhões, apenas estatística. Mas o principal é que a África ainda personifica “o outro” para a sociedade ocidental, que não se identifica com sua dor. Prova disso é que mesmo o assassinato de cristãos nigerianos não comove tanto quanto a morte de bósnios ou albaneses muçulmanos. Quando os sérvios começaram a liquidar os muçulmanos na Bósnia e no Kosovo, o Ocidente interviu. Há uma precedência da raça sobre a orientação religiosa: um europeu muçulmano vale mais que um africano cristão... A lógica da mente ocidental, hipócrita e desumana, ainda contaminada pelo preconceito decorrente da escravidão dos africanos, funciona como no diálogo abaixo, hipotético, mas verossímel: - Duas mil pessoas foram assassinadas ontem. - Nossa! Onde? - Na África. - Ah, na África. Na África pode. Aos que se comovem com mais essa tragédia, mais uma conta no extenso calvário africano, resta se perguntar, relembrando Castro Alves: Senhor Deus dos desgraçados! Dizei-me vós, Senhor Deus, Se eu deliro... ou se é verdade Tanto horror perante os céus?!...
Janeiro de 2015


