HISTORIAS DO WENCESLAU ÁVILA Devia ser uma daquelas tardes de março nos tempos em que as chuvas eram amedontradoras. Antes me ocorria de contemplar as tempestades, de dentro da minha casa, olhando para a porta da sala, lá longe onde o morro do Zé Baio encobria o horizonte! Saímos no fim da tarde, com 4 juntas de boi, um carro com esteira, eu e meu pai, em direção ao Mundo Novo. Desta vez, não sei porque razão pegamos a estrada que passava pela fazenda do Mizael e não pela serra, como era o hábito. Talvez em razão do tempo que se anunciava. Me lembro que, apesar de tudo, era uma tarde linda e eu me estava muito excitado pela oportunidade de sair com meu pai, para um lugar bastante longe e como “um grande” enfrentar as dificuldades de uma jornada de trabalho apesar de meus 8 anos! Como era comum, em algum lugar após uma boa hora de caminhada, afinal os bois iam caminhando, sem pressa, paramos para beber uma água e comer uma rapadura. Não e nem nunca mais vou saber se a água era boa por causa da rapadura ou a rapadura era boa por causa da água! O tempo estava ficando feio e o caminho era longo. A noite já se anunciava sombria e o céu carregado. Não demorou muito e a chuva começou a cair. Meu pai falou: Lau entra no carro e cobre com aquele bachero, pra não molhar muito, que eu toco os bois. Até então eu ia na frente, “candiando” e meu pai “ferroando” a boiada pra não perder tempo! Eram quatro juntas de bois e um carro vazio, então devia seguir rápido! A chuva sói aumentava, os raios, os trovões percorriam os céus como se fosse um dilúvio. Vez ou outra eu tirava a casa do bachero e só percebia um esbranquiçado pra fora, nem mesmo sabia se meu pai estava por ali, a não ser quando ouvia seu grito, “vamos, vamos” e as juntas seguiam na escuridão da estrada enlameada e escorregadia. Parecia-me uma eternidade todo este trajeto, quando eu menos esperava, meu pai se aproximou, acho até que cheguei a dormir no balanço do carro, bem ele chegou e falou: estamos meio perdidos. Meu pai nunca se dava por vencido, lutava até o fim. Compreendi então que fazia um bom momento que ele estava tentando achar uma saída – estávamos numa “cava”, um breu total, ele já havia soltado alguns bois e restava apenas a junta do cabeçalho. O carro estava encalhado numa cava, profunda, escura, e com muito barro e apena suma junta de bois jamais conseguiria tirar o carro de lá. Ele falou: Lau, vamos soltar os bois aqui, vamos dormir na casa do João Lau e amanhã a gente volta pra pegar o carro e juntar os bois! Quando ele chegou na junta de bois que estava na cabeceira do carro só tinha um boi e ao soltar do carro ele disparou na escuridão com a canga no pescoço. O que fazer? – Nada! Fomos caminhando, com dificuldade, na maior escuridão, ainda que sem chuva mas um ar frio e um “breu” total! Chegamos, anunciamos, explicamos! No dia seguinte esta imagem, patética de um boi, do cabeçalho com a canga (que seria para dois bois) no pescoço. Naquela manhã, lembro-me que o céu estava límpido e a grama muito verde. Nunca mais a vida foi a mesma – tudo aquilo parecia nunca ter acontecido! (ELE, SEU PAI ZÉ LAU EO SOBRINHO LEANDRO)
21 de novembro de 2013
HISTORIAS DO WENCESLAU ÁVILA
Devia ser uma daquelas tardes de março nos tempos em que as chuvas eram amedontradoras. Antes me ocorria de contemplar as tempestades, de dentro da minha casa, olhando para a porta da sala, lá longe o

— Soninha



