ERA MENINO DA IGREJA
Era um santo anjinho, só de olhar a gente já imaginava uma auréola de luz em REDÓ da cabecinha e asinhas de pena de frango caipira em Redó da cacundinha. Rááá Ráá Rá! Essa linda figurinha era pura santidade, tem o nome de Vilmarzinho, o dois, porque o um, é o pai, o Vilmar Teixeira. Ê, menininho gracioso, amoroso, fervoroso!
Cinco aninhos de caminhos bem traçadinhos dentro das leis da Santa Madre Igreja. Chegou na escola já rezando o Terço, contemplando os mistérios, até a Salve Rainha que a gente garra a falar disparado pra não trupicá com tanta palavra difícil, ele rezava sem gaguejar e sabia os Dez Mandamentos, os Sete Pecados Capitais, nome do Papa...Noooossa! E missa, então... Ele não perdia uma, no domingo ia nas três...Beijava a mão do padre...
Só sei que quando foi meu aluno no Pré Primário me fez rir demais e eu, como quase não gosto do mal feito, dito e feito, explorava essa figurinha rara ao máximo. Ele tinha um medo de pecar, então, tudo era dentro dos conformes da igreja, comportamento impecável, pedia pra tirar a reza, no recreio fazia o Sinal Da Cruz antes e depois da merenda, enfim, preparado para o seminário, o anjinho queria porque queria ser padre.
Ele era o Ó do borogodó. Conforme o tempo passava ficava mais extrovertido, aí, no dia que fez seis anos, no Pré Primário, como de costume comemoramos, ele era só alegria e, para fazê-lo mais feliz ainda, preparei-lhe uma surpresinha. Passei batom vermelho nas boquinhas das aluninhas e falei assim:
_Vilmarzinho, tira a camisa, tira a bermuda, fica aqui do meu ladinho. _Vou ficar pelaaaadinho? _Claro que não! O que tem de esconder sua cuequinha tampa. _Minha mãe não pode saber.Ai, que vergoooonha! _Você vai ficar feliz.Deixa a vergonha dormindo. Agora as meninas! Venham em fila pra deixar beijinhos no corpinho branquinho do aniversariante. _Nooos-sa Senhora! Beijar eu, tia Soninha? Né pecado,não? _Que pecado,sô! É carinho.
Geeeente, que cena inesquecível! Eram vinte boquinhas vermelhas e muito emoção.Ele flutuava. Ficou carimbadinho de boquinhas nas costas, nos braços,barriguinha, pernas, no rosto, mas o ‘’penduricalho’’ ele protegeu tanto com as duas mãos,mas tanto, e de um jeeeito, como se fosse o bem mais precioso do mundo.
Não sei se ficou de castigo, nem me lembro se perguntei, o que sei,é que na saída, acabando a escola do pré, o pré padre desceu morro abaixo só de bermuda,blusa na mão,rodeado pela turma e sentindo-se o rei do pedaço. Dei muuuita risada! Rio até hoje quando a cena me vem. Amei!Amei!
O que não sei é se os beijinhos influenciaram na sua vocação. Sei que a mudança aconteceu e como! Sei também que o branquinho Vilmarzinho Teixeira um tempinho depois, não contava com as surpresinhas do coração. Bateu uma paixãozinha nele de repente, mas, uma paixãozinha daquelas de sofrer de verdade.Muito raro em sua idade. Ô, dó! Ô, sofrência!
Entre as coleguinhas ele suspirou dobrado por uma menina de óculos de aro preto que havia chegado de São Paulo, a Bruninha Monteiro,muito graciosa, filha da Clara. Geeeeente de Deus! O suspiro dele era tão pro-fun-do que entrava no coração, no pulmão e demorava a voltar. Ficava sem ar. E ele era muito sensível, a impressão era que o amor doía nele. Nooossa! Que dó!
_Vilmarzinho, chora,não. _Tá doendo meu coração,eu amuela. _O que mais gosta nela? _Do ócros de grau da beirada preta. _Isso passa, logo você vai para o seminário. _Acho que eu nem vou mais. _Por que não? _Ah! Porque tô com intenção de casácuela e padre nuncasa.
O SEMINÁRIO, A BATINA, ADEUSINHO! ZÉ FINI!!!
Sabe a paixãozinha dele? Foi igual fruta de época. Uma fruta da jabuticabeira. Teve seu tempo e passou. A vontade de ser padre também passou. Passou tanta coisa! Agora o que nunca passou nas minhas lembranças foi a sofrência do primeiro amor prematuro do Vilmarzinho porque teve até lágrima escorrendo cara abaixo.
Acabou-se o que era doce, a linda paixãozinha, o primeiro ano de escola, o prezinho. Ah! Nos teatrinhos da escola mostrou-se ator dos bons, excelente na comédia, foi o noivinho caipira mais engraçadinho que eu já vi. Arrumou um paletozinho branco, botina, uma capanga com um pão bengala pendurado no ombro e matou o povo de tanto rir.Era um talento.
E o Vilmarzinho cresceu, encontrou seu grande amor,Andréia,casou e mudou e lembranças deixou.E vem sempre atrás de suas saudades. Dança moçambique todo ano e na família continua sendo o pitelzinho dos pais e das manas. Vem com a esposa amada, Andrea, uma morena bonita e a filhinha.É a simpatia de sempre.Agora, a fé continuou, mas não do tanto que desse pra virar padre.
Esse foi o causinho bonitinho de amor do Vilmarzinho que pensou um dia ser padre. Essa foi a primeira vez que a Bruninha de óculos de grau de armação preta foi amada.Deixo um beijinho de boca vermelha de batom em cada menino e menina do prezinho.
E viva o Vilmarzinho Teixeira e família! E viva os pais, Vilmar e Divina! E viva as manas! E viva o meninininho que ia ser padre! E viva tu e viva o rabo do tatu!
Fotos: Vilmarzinho-Bruninha- Ele e Andréia- a família









