Em tempos atuais de democracia conturbada, onde mais se vê duas Frentes Políticas se digladiando, no lugar da Justiça e da Ordem que deveriam estar reinando, nada melhor do que relembrar os “causos políticos” do nosso passado... Texto:MarceloLagoa
PARTIDO VELHO vs. PARTIDO NOVO
Faltavam dez dias para a eleição municipal. Naquele tempo, o Juiz de Paz de Guapé (que era do Partido Novo) tinha já EXCLUÍDO todos os eleitores que lhe eram contrários, deixando apenas quatro… Para que o eleitor fosse considerado “apto a votar” (com ênfase ao eleitor adversário), o Meritíssimo Juiz dava-lhe uma velha cartilha escolar, que o pobre capiau da roça deveria ler, sem titubear! Não podia reclamar, ao que o Juiz respondia prontamente: __É a Lei!! Assim, não qualificava quase nenhum.
Porém, gastando-se dinheiro lado a lado, nada se poupou naqueles tempos para se adquirir um votante (lembrando que os esforços partiram dos DOIS LADOS adversários: do Partido Velho e do Partido Novo, e não apenas de um. E a “compra de voto” ainda não era considerada um Crime Eleitoral). Doutor Passos Maia percorreu a galope – como Cabo Eleitoral – toda região circunvizinha, na busca de um votante para o seu Partido. Seu adversário, Capitão Juvenal Lemos, com talento nato para o discurso, anulava sempre todas as convicções que o Doutor conseguia colocar na cabeça do eleitor! Mesmo assim, Doutor Passos Maia conseguiu uns setenta eleitores que garantiram votar na chapa. Entre os garantidos, estava o segundo Juiz de Paz, José Bernardes Coelho – que sendo alcoólatra, prometeu não beber nada no dia da votação, embora isso se tornou um problema, pois abstênio naquele dia, o pobre homem chegou às urnas muito mais irritado do que num dia comum de bebedeiras!
O adversário, Capitão Juvenal Lemos, como já foi dito, era mestre em conquistar adeptos: Na véspera das eleições, entrou todo garboso na cidade, com uma tropa de oitenta cavaleiros. Vendo aquela luzida cavalgada, interminável desde a entrada da cidade até o centro da Praça da Matriz, Capitão Juvenal conquista para sua banda, nada mais, nada menos que o próprio Chefe do partido contrário (o chefe do Partido Velho, do Dr. Passos Maia). O homem, ao ver tão grandioso desfile, planta-se no meio da rua e tirando o chapéu declama em voz alta: __Via o partido Novo! Viva o Partido do Capitão Juvenal! Via-se por aqui que a situação política se complicava cada vez mais, para os lados do pobre Dr. Passos Maia!
Porém, antes da votação, por ofício o Segundo Juiz de Paz assume a jurisdição (aquele mesmo juiz que prometeu comparecer sóbrio, sem beber nada antes da Eleição, e que estava do lado do Partido Velho, o Partido do Dr. Passos Maia). PRONTO! ESTAVA ARMADA A CONFUSÃO! Na eminência de um futuro assassinato que poderia acontecer, Capitão Juvenal, do Partido Novo manda chamar Dr. Passos Maia às pressas para uma conferência, ocorrendo um diálogo mais-ou-menos assim: __Olha, Doutor; peço-lhe que retire imediatamente o seu Segundo Juiz de Paz daquela mesa, sob as penas de que não posso me responsabilizar pelos atos dos meus correligionários! Ao que o Doutor Passos Maia responde prontamente: __Mau grado a minha boa vontade em atender vosso pedido (sendo o senhor um homem tão acatado), todavia não posso fazer isso, sob o risco de que atribuam esse meu ato como se fosse por medo! Façamos assim: Contenha os seus bêbados, que eu contenho os meus, e tudo correrá bem!...
Partindo dali, Doutor Passos Maia vai em busca de apoio do Comendador Bernardino de Faria Pereira, cuja fazenda era vizinha à de seu pai. ComendadorBernardino era homem respeitado e sua presença valia por um regimento inteiro… Negando-se a envolver no assunto, Comendador Bernardino responde: __Maioria, Senhor Doutor. Não faz rolo! É claro que a maioria sendo inteligente, dá um bom resultado, mas segundo a opinião do Doutor Passos Maia, aquela era uma maioria de “massa obtusa e rude, à qual pouco importavam as consequências”.
O que fazer nessa situação? A eleição quase perdida… Passos Maia então, teve uma ideia:
PRIMEIRA PARTE DO PLANO: Na noite anterior, tinha chegado à Fazenda do Doutor Passos Maia umas cargas fechadas, as quais ninguém viu o que era, mas todos supunham ser cargas de palmitos. Então o Doutor chegou ao ouvido “de um tagarela” e disse-lhe mais-ou-menos assim: __Estamos tranquilos… Sabe aquela carga que chegou à noitinha? Pois é… São carabinas! Estou lhe contando isso, mas só conto para você. É segredo, e não conte para mais ninguém, ouviu?
SEGUNDA PARTE DO PLANO: Em seguida, mandou recado ao Coronel João Marciano de Faria Pereira que viesse a galope e fazendo muita poeira com seus quarenta eleitores da Capoeirinha. Que viesse a galope e entrassem todos ao mesmo tempo na propriedade do Doutor Passos Maia. E quem visse de longe o movimento, não poderia saber quem eram e nem quantos eram, dando-se a impressão de uma quantidade enorme de jagunços…
RESULTADOS DO PLANO: Bom, assim os adversários pensariam que o Partido Velho tinha não só as carabinas, mas também tinham os jagunços para atirar com elas!
E assim foi instalados os dois blocos políticos na cidade, antes da votação: Os eleitores do Partido Novo na casa do Tenente Lisandro Eugênio do Amaral, de um lado da Praça da Matriz e os eleitores do Partido Velho do outro lado da rua, na casa de Dr. Passos Maia, que também foi a escolhida para local de votação.
COMEÇOU A VOTAÇÃO: O Segundo Juiz de Paz, mais tonto ainda naquele dia porque não tinha bebido nada, postou-se à mesa de votação. E o primeiro eleitor votou, colocando a cédula na urna. Um advogado – fiscal de urna, um jornalista que veio de Boa Esperança e estava do lado do Partido Novo, começou a confusão, gritando que tinha de olhar a cédula, antes de ser jogada na urna. Doutor Passos Maia não permitiu, citando a lei eleitoral que exigia apenas que a cédula estivesse convenientemente fechada e rotulada. O Advogado não concordou e renovou seus protestos. Então o Segundo Juiz de Paz, já irritado que estava pela abstinência da bebida, levanta-se colérico e leva a mão ao queixo do advogado, urrando: __Cala a boca, porcaria!
PRONTO! FOI UM DEUS-NOS-ACUDA. Nesse momento, o ex-chefe do partido (que tinha virado pro lado do Partido Novo) pega a garrucha e clama em voz alta: __Povo de Guapé: ÀS ARMAS! Juiz de Paz: FORA! Doutor Passos Maia e os demais correligionários rodeiam nesse momento o Segundo Juiz de Paz, protegendo-o com mais de vinte armas engatilhadas. Então o ex-chefe do Partido recua, pálido, e saindo à rua, começa a gritar: __Povo de Guapé: FUJA QUEM PUDER! Os eleitores do Partido Novo fugiram pela porta da frente. Os eleitores do Partido Velho, fugiram pelos fundos. Um cachorro deitado na porta não teve tempo de levantar e foi pisoteado pelos que debandavam, na maior algazarra. Alguns se atiraram pela janela, na fuga. Um quase caiu dentro do tacho de sabão, que fervia debaixo de uma janela. Um copeiro que estava na cozinha, veio correndo para a sala ver o que estava acontecendo. Na corrida, trouxe na mão, sem perceber, a faca ensanguentada que usava para preparar as leitoas para o jantar. Com a visão terrível de um homem empunhando a faca ensanguentada, aterrorizou-se o resto do povo já assustado. O Novato sacristão era paralítico e veio empurrado na cadeira de rodas para dar o seu voto. Na hora da confusão, seu filho saiu correndo levando o pai carregado nas costas, largando pra trás a cadeira de rodas. Quem viu, dava a impressão de ter visto um defunto sendo carregado… O mesário e o escrivão abraçando os livros e as folhas que voavam na confusão, também saíram correndo.
E A ELEIÇÃO ACABOU ASSIM: Com os eleitores do Partido Velho votando na casa de Doutor Passos Maia. E os eleitores do Partido Novo votando na casa da frente, a casa do Tenente Lizandro… A eleição do Tenente Lizando foi considerada NULA, por ter acontecido em “local não designado”… E a eleição na casa do Doutor Passos Maia foi validada. E como só votaram ali nesta casa o pessoal do seu Partido, o Partido Velho ganhou a eleição!
E VIVA A DEMOCRACIA!



