(Em Algum Lugar Li Os Versos. Em Um Lugar ouvi a Prosa.)
FORAM DUAS LINDAS HISTÓRIAS DE AMOR
''PÉS DE GALINHA
Passei a infância toda Achando que a minha mãe Gostava de pés de galinha, Comia com tanto gosto Chupava até os ossinhos.
"Ninguém come os pés, são meus"- dizia Toda a carne dividia Peito, coxas e titela, Fígado, coração e moela, Mas os pés, os pés era só prá ela. Depois de todos servidos, Então sentava e comia. --- Mas o tempo foi passando, A criançada crescendo, Os maiores trabalhando, A vida foi melhorando. Depois de uma infância dura Começamos Ter fartura. Vi minha mãe na cozinha Tratando de uma galinha E ao contrário de outrora Flagrei aquela velhinha Jogando os pezinhos fora --- Ao notar o meu espanto Aquele coração santo Da minha doce mãezinha Apressou-se em explicar: "Nunca gostei do tal do pé de galinha" É que a carne era tão pouca, Pra tantas bocas não dava, E pra você não ficar triste Eu fingia que gostava." ---
AGORA VEM A HISTÓRIA QUE CONHEÇO... A HISTÓRIA QUE OUVI DE NOSSA MAMÃE...
É QUE LENDO o causo acima, e que acredito ser verdadeiro, lembrei-me de outro causo, um que ouvi de nossa mamãe Sabina, sobre essa nossa vovó do retrato, essa aí, a Mariana,carinhosamente chamada pelos conhecidos mais chegados e por nós, seus netos, de ''Mãenana''.
ESSA DOÇURA de Mãenana foi abandonada pelo marido,ainda bem jovem, com nove filhos, bem aqui pertinho, da outra banda do rio, em Araúna, frágil,sem ter sequer uma chance de como colocar comida em todas aquelas boquinhas, sem ter terras para plantar,sem ninguém para ajudar, sem nada. A comida era tão escassa ou nem tinha! As roupas também. Meu tio Dodô, o mais velho,já mocinho virou o chefe da casa e só tinha uma roupa de ir pra roça e uma de vestir em casa, mas nela havia tanto remendo que o mocinho nem coragem tinha de ir ao encontro dos amigos na venda no arraial.
ASSIM FOI POR ANOS,e ele levava os irmãozinhos, crianças um pouquinho crescidas e carregando suas enxadinhas, e bem mais tarde,nossa mamãe já mocinha e namorando nosso papai Itamar, vinha pelo caminho da serra do Mandembo nos dias de missa, nos dias de alguma festa, e ele dizia reconhecê-la ao longe pela cor do vestido,é que ela só tinha um.
Ê VESTIDINHO usado! Vestia para rezar, vestia para passear, vestia para namorar, vestia para dançar, tirava para lavar, cuidava pra não rasgar,pois tinha sim que durar, era o que tinha para ainda noivar. Tudo com ele, viveu os momentos bonitos de moça e, muitos anos mais tarde,quando já tinha tantos outros, dizia pra gente, que aquele vestido surrado, foi por ela o mais amado.
E ELA SEMPRE lembrava o que nossa Mãenana dizia, estavam sempre vazias, as panelas que existiam e daí quando pensava, hoje não terei nada para minhas nove boquinhas, sempre alguém chegava, trazendo uma coisinha, era assim todo dia, uma ajuda saía.Era um vizinho que trazia, uma farinha que dela fazia, um ensopado que a meninada comia. Tinha dia só de mandioca, tinha dia de feijão e que ela cozinhava, primeiro pegava o caldo que misturava com farinha, porque assim mais rendia e sobrava o feijão para comerem no outro dia.
E NESSA LABUTA, nessa vida bruta, viveram muitos anos na pobreza, porém com muita nobreza. Tio Dodô, tio Zezé,tio Pedro, tio Job, tio João,tia Lilia, tia Elvira, tia Irene e minha mãe Sabina.Os Goulart's.Até crescerem era essa pobreza extrema. Tanto sofrimento guardado! Tanto gesto escondido! Tanto sono mal dormido! Tanto sonho amanhecido!
TIVE VONTADE DE escrever essas passagens que mamãe dizia, só depois de adulta é que ela percebia, nossa Mãenana nunca comia na mesma hora que os filhos,era sempre no final,lembrava que ela pegava os pratos e raspava as sobrinhas e raspava as panelas, porque nem sempre tinha prato dela, para sobrar mais comida para suas nove boquinhas, já que era pouco,é certo, que o que sentia tinha nome, era sempre FOME. Eles,crianças, não percebiam e só mais tarde quando tiveram filhos é que se voltaram para analisar o passado.Triste análise.Linda mãe.
Doce vozinha! Doce Mãenana! Quantas Mãenanas já rasparam os pratos? Quantas Mãenanas já dormiram com fome? Quantas Mãenanas já comeram sem gostar pés de galinha?
A vida tem tantos causos! Tantos causos a vida tem! E mãe nunca deixa o filho sem.
Beijinhos,para minha mamãe saudade. Beijinhos,para meus tios saudade. Beijinhos,para mãenana saudade.
O MEU Tio João Goulart, essa doçura de tio, sobrou para ter lembranças de quando foram crianças.Faltava comida, sobrava amor, alimento da vida.Beijinhos aí no céu, família querida. Sobraram também muitas folhas escritas por mamãe onde ela escreveu a mão o que guardou no coração.A vida vivida com amor, a lida na roça,as enxadas,a comida fraca para o trabalho pesado, o desespero,a descrença,a esperança, o amor entre os irmãos e o perfil da doce mãenana. Mariana Elpídia de Jesus. DE JESUS.
NESSA VIDA, as histórias são escritas de várias maneiras,porém,nos capítulos, ou entre um e outro, além das tristezas,tem também muita alegria e no fim tudo vira poesia. Saudade dela. De tanta ruga macia! Foi essa a última foto e eu sabia.Foi há muitos anos.Faz também muitos anos que temos orgulho de nossa história.
Para os parentes que me perguntam o que sei desse passado, respondo, houve nessas raízes, um imenso amor brotado em cada espinho encontrado, é simplicidade, muito de nossa verdade, e que dessas raízes, envoltas em carinho e saudade, floresça sempre as mais bonitas histórias.Que raspem sempre os pratos e como a Mãenana, alimente-se de pouco, se preciso for,mas alimente-se de amor e vai pela vida repartindo porque isso é lindo. (Beijo.Soninha. )







