3 de janeiro de 2018

É uma honra apresentar-lhes o texto de... Vanis Vieira Cunha

Em Guapé, ressurgimos das águas! Há poucos dias, chegando a minha querida cidade de Guapé (MG) fui levado pela curiosidade ao local onde o lago banhava nossa cidade, perto do “Bangalô”. Aproveitei a g

É uma honra apresentar-lhes o texto de... Vanis Vieira Cunha.

Em Guapé, ressurgimos das águas!

Há poucos dias, chegando a minha querida cidade de Guapé (MG) fui levado pela curiosidade ao local onde o lago banhava nossa cidade, perto do “Bangalô”. Aproveitei a grande baixa das águas e fui andando, chegando às escadas do antigo prédio dos correios. Precisamente num local aonde antigamente chegava e era emitida um dos meios de comunicação mais elegante: cartas! As cartas que quase sempre traziam lembranças singelas de saudade. Pensei comigo: aqui a saudade permanece.

Fiquei um bom tempo observando e imaginando o que foi a cidade, hoje escondida debaixo das águas e que aparece agora em destroços de ruínas. Tentei, pela lembrança de fotografias antigas, comparar e determinar os locais, a partir da escada dos correios. Olhei, imaginando a Matriz e como seria a visão de sua torre, da rua, bem perto das capelas laterais e a imponente Praça Raul Soares. Nessa nuance, as prosas no adro da Igreja após as missas, as comadres conversando, os pequenos bares, onde alguns homens costumavam tomar um “gole”. Também, crianças livres, sem o apego das mídias, brincando nas ruas, de pique e o vai e vem dos enamorados.

Olhei para o mastro onde está à imagem de são Francisco, cuja imagem está voltada para a nova cidade. Dizem que quando se fez a procissão retirando a imagem da antiga igreja, por um lapso ela foi carregada ao contrário do tradicional, ou seja, subiu com o rosto voltado para o local da antiga Igreja. Naquele dia foram ao encontro das águas represadas as lágrimas das pessoas que simplesmente tiveram de demolir suas casas, retirando sobras para novas construções. Inúmeras “vidas afogadas” e até paginadas que seriam apenas um “retrato de parede”. Senti nesta contemplação, em cada detalhe das ruinas, o desespero de um povo que foi agredido historicamente, deixando ali resquícios de sua história. Ouvi metaforicamente o choro salpicado pelo amargo, por tantas propriedades inundadas, cujos troncos de arvores agora denunciam que Guapé (MG) só teve sorte diferente de Pompeia (destruída pela erupção do vulcão Vesúvio em 79 A.C) porque a tragédia da chegada das águas não foi tão inesperada. Por muitos anos o belo lago escondeu de nossos olhos o que agora vemos com a baixa das águas.

Olhando o que outrora foi um belo lago, por vanglória, quis ser Juiz ao julgar se foi justo ou não perder sonhos e toda a estrutura estabelecida naquele tempo, em favor da campanha de um ditoso progresso. O escritor de “O Príncipe”, Nicolau Maquiavel, dizia que “os fins justificam os meios”. No caso de Guapé (MG) não consigo elaborar conceito que justifique tamanha agressão no passado e agora no presente, devido à baixa das águas, com a crescente diminuição das nascentes. E mesmo que algumas indenizações ilusórias tenham sido feitas e obras na nova cidade, ainda discordo de Maquiavel. Mas como é próprio de Guapeense ser silencioso, pelo menos eu acho, não quis mais julgar, silenciando meus questionamentos em comunhão com as ruínas. Cresci ouvindo estórias sobre o “Guapé Antigo”, nasci quinze anos após o evento da chegada das aguas em nossas terras. Os adultos falavam de forma bem discreta querendo esconder uma dor, uma mágoa pelas águas azuis, falavam de forma carregada com uma saudade que não conseguia entender, mas que passou a fazer parte de mim. Não vivi no tempo anterior a Furnas, mas pulsa algo como se o tivesse vivido, como se tivesse entrado na Matriz nas missas do dia, andado na praça ou me banhado no ribeirão, ao fundo da pequena cidade. Não é estranho supor que todo Guapeense é naturalmente saudosista por querer lembrar tempos antigos, como poetizou Casimiro de Abreu: “...os anos não trazem mais”. Quando aplico o adjetivo saudosista, o faço numa perspectiva positiva, julgo que o sentimento de saudade produz uma boa dose do desejo de conservar a história para que sejamos agora, no presente, protagonistas da mesma. De fato, somos mesmo cheios de saudade e é isso que faz de todos os Guapeenses fortes para não se deixarem afundar pelos dilemas e contratempos. Olhei para o relógio e vi que ficara muito tempo ali “no antigo Guapé”. Novamente entrei no carro e subi a Rua Padre Domiciano, muito feliz por ter sentido saudade. Agora se juntam duas saudades: a cidade antiga e o belo Lago. Respirei fundo e disse para mim mesmo: que bom estar na minha terra!

Para homenagear, neste Novo Ano, meus conterrâneos, faço minhas palavras as de Fernando Pessoa:

“Meu pensamento é um rio subterrâneo. Para que terras vai e donde vem? Não sei... Na noite em que o meu ser o tem Emerge dele um ruído subitâneo De origens no Mistério extraviadas De eu compreendê-las..., misteriosas fontes Habitando a distância de ermos montes Onde os momentos são a Deus chegados... De vez em quando luze em minha mágoa Como um farol num mar desconhecido Um movimento de correr, perdido Em mim, um pálido soluço de água... E eu relembro de tempos mais antigos Que a minha consciência da ilusão Águas divinas percorrendo o chão De verdores uníssonos e amigos, E a ideia de uma Pátria anterior À forma consciente do meu ser Dói me no que desejo, e vem bater Como uma onda de encontro à minha dor. Escuto o... Ao longe, no meu vago tato Da minha alma, perdido som incerto, Como um eterno rio indescoberto, Mais que a ideia de rio certo e abstracto... E p'ra onde é que ele vai, que se extravia Do meu ouvi lo ? A que cavernas desce? Em que frios de Assombro é que arrefece? De que névoas soturnas se anuvia? Não sei... Eu perco o... E outra vez regressa A luz e a cor do mundo claro e atual, E na interior distância do meu Real Como se a alma acabasse, o rio cessa...” Enfim, a saudade faz bem quando me leva ao novo. A ave Fênix ressurge das cinzas, mas em Guapé (MG), ressurgimos das águas! Se por ventura elas abaixarem ao ponto de não voltarem, novamente estaremos prontos para ressurgir de novo.

PessoasRosaRosa
LugaresGuapéMatrizSão FranciscoFurnasLago
TemasReligião e ProcissõesCidade Velha (saudade)EsporteNatureza e Lago
— Soninha
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