26 de janeiro de 2018

DE: MarceloLagoa p/ JairMiranda

Escrevi o texto no dia 13 de Dezembro de 2013 e foi publicado pelo Jornal Bão de Prosa na mesma época. O texto faz parte das minhas lembranças de Guapé. Eu não poderia me esquecer do Professor Jair, p

DE: MarceloLagoa p/ JairMiranda

Escrevi o texto no dia 13 de Dezembro de 2013 e foi publicado pelo Jornal Bão de Prosa na mesma época. O texto faz parte das minhas lembranças de Guapé. Eu não poderia me esquecer do Professor Jair, pois considerava ele o melhor professor de Matemática que eu já tive! Aliás, sabemos que Guapé sempre produziu bons professores, uma tradição que vem se repetindo desde o tempo do Professor Boaventura até os dias atuais! Parabéns à cidade, que possui um excelente corpo docente nas Escolas Municipal, Estadual e Particular.

O texto foi uma homenagem ao Professor Jair. Naquela época a repercussão foi tão grande, mas tão grande, que em poucos dias era a postagem mais visualizada, mais comentada e mais compartilhada de todos os tempos, na história do Jornal Bão de Prosa! Então percebi a importância do Professor na vida de seus alunos. E o Jair foi um Professor que se propôs a ensinar uma das matérias mais odiadas pela maioria dos alunos! Era de esperar que a aversão pela matéria se refletisse também na simpatia que cada aluno nutria pelo Professor… Mas não! Com Jair foi diferente: Ele sabia ensinar. E seus alunos gostavam de aprender com ele!

O Professor chegou a ter notícias desse texto, que eu publicaria no Jornal. Ele até riu da história. Ele até “posou” para a foto: Esta foto que vocês estão vendo foi o Edilson do Juca da Maruca quem tirou. Ele disse ao Professor que era para uma publicação do Jornal, e o Jair concordou em tirar foto. Infelizmente, poucos meses depois, no dia 27 de Abril de 2014 o Professor nos deixou. E numa cirurgia de risco, perdemos nosso Professor nas salas de um Hospital.

Até hoje as pessoas acessam as postagens! E onde veem a foto do Jair, seus alunos comentam, compartilham, elogiam e lamentam com saudade a ausência do Professor! Foi pensando nisto que eu tive a ideia desta campanha: EMPRESTAR O NOME DO PROFESSOR JAIR À UMA RUA DA CIDADE. Se você concorda comigo, me ajude a carregar esta bandeira. Abaixo temos uma cópia do primeiro texto que homenageava o Professor:

MEU IRREVERENTE PROFESSOR JAIR 13/12/2013

Alguém já teve um professor assim?

Era desse jeito meu professor de matemática no Ginásio: Camiseta em tons claros, descombinando com a calça social escura e sapato social esporte-fino...

Entrava na sala de aulas o professor Jair, com todo seu material didático despreocupadamente carregado debaixo do braço... Trazia também seu próprio giz. No bolso de camisa, um maço de cigarros – que nunca saía de lá quando estava dentro da sala, mas que usava de vez em quando nos corredores da Escola, enquanto a gente se empenhava em resolver questões de álgebra propostas por ele...

Não sabemos do quê – e também nunca vamos saber – mas por várias vezes o professor Jair entrou na sala com meio-sorriso no canto da boca e assim permanecia até o fim da aula. O que estava pensando? Quem sabe remoendo algum “causo”, daqueles que os professores contam um pro outro, lá na Secretaria antes de descer pra sala.

Mas de repente, Jair disparava a piada em pleno “momento de epifania cultural”, fazendo todo mundo rir, esvanecendo o clima árduo e complexo das equações de 2º e 3º Graus... Matemática sempre foi matéria polêmica – amada por meia-dúzia e odiada por uma centena – mas nessa hora o professor é que fazia a diferença! E O JAIR FOI ESSE PROFESSOR...

Jair sempre teve paciência e muita tolerância com a gente, porém sem perder o respeito dos alunos. Se ficava nervoso gaguejava um pouco e as palavras enroscavam na garganta, não saíam direito... Parecendo contas de divisão quando deixa um restinho pra trás. Jair era um professor distraído... Tão distraído que no dia que Suavita ganhou a primeira criança, o professor dormia tranquilamente... até que ela o chamou e disse: __ Jair, acorda homem! Socorre que a bolsa rompeu!....

O Jair só virou pro outro lado e resmungou: __ Não tem problema, amanhã te compro outra...

MAS SÃO “CAUSOS” DO GUAPÉ... Ele nunca confirmou a veracidade dos fatos... Mas o povo jura que foi desse jeitinho!!

Ele jamais, JAMAIS deixou seus alunos esquecerem de uma coisa: Compenetrado – de uma SERIEDADE que todos nós sabíamos que não era bem assim – nosso Jair se virava pro quadro-negro (que era verde lá no Ginásio) e desenhava um enorme caminhão ocupando metade do quadro! Era um caminhão semelhante aqueles do Baú da Felicidade, e dentro da carroceria de sua Obra Artística enchia de números... números e mais números... não contente, escrevia números fora da carroceria também. Na pincelada final do artista, envolvia tal caminhão entre dois parênteses gigantes e elevava tudo aquilo à potência Zero. E pronto!! Tínhamos – como dizia nosso professor: __“UM CAMINHÃO DE NÚMEROS ELEVADO A ZERO, sempre é igual a UM...”

Contas e cálculos gigantes, era com ele mesmo: Bem humorado, às vezes não queria quebrar a linha do cálculo, então o quadro acabava e ele continuava, acompanhando a moldura de madeira... Ou começava com números gigantes e quando via que não cabia no quadro, diminuia, diminuia... até que não se enxergava mais o resultado.

Praticávamos “corrida matemática”: Um tipo de corrida com papel, caneta – e muito cálculo.

Era assim: Sem dizer "um pio", Jair se dirigia ao quadro e montava a equação. Todos atentos – podia colar, pesquisar no livro... Jair não se importava muito com isso – só não valia olhar no caderno do vizinho. Conferia o relógio – um Orient automático – e autorizava os cálculos. Dado a largada, circulava entre as carteiras, quando de repente alguém gritava: __ACABEI!!

Jair conferia atentamente e inquiria do aluno como chegou a tal conclusão. Assunto explicado, o professor assinava o caderno e aquele “aluno rapidinho” ganhava Meio Ponto !!

E quando não era corrida, resolvíamos a equação e levávamos até sua mesa. De lá saíamos contentes com mais “meio ponto” assinado ou então um "ZERO" bem grandão em cima da conta errada, pra não haver dúvidas... E no fim do bimestre mostrávamos outra vez o caderno ao Jair, que conferia rapidamente e somava os meio pontos. Nesse dia, Jair apenas virava as páginas e somava...

ENTÃO DESENVOLVEMOS NOVA HABILIDADE: TREINAMOS A ASSINATURA DO JAIR – que não era tão difícil de imitar – e dava certo!!! Esses “meio pontos” (os verdadeiros e os falsos) ajudaram alguns a se livrar da recuperação... Por fim, nunca soubemos se os pontos falsos valeram por ficar idênticos, ou se ele percebia – mas dava a nota mesmo assim pelo nosso esforço artístico, pela "criatividade" e talento...

Sabem de uma coisa? Não é severidade ou caráter violento de um professor que imprime respeito aos alunos... O nome disso é MEDO. Pois o VERDADEIRO RESPEITO se adquire mostrando de forma natural todas as Qualidades de Mestre. E “qualidade de mestre” se confere no jeito especial de conquistar a atenção dos alunos e saber ensinar, sem tornar pesado o clima de uma matéria tão difícil e às vezes chata. Jair era mestre na arte de ensinar.

Uma vez Jair entrou na sala e todos continuaram conversando. Ele simplesmente passou a matéria no quadro e foi sentar. O tempo passou... a sirene tocou... e o Jair saiu da sala... Não falou “oi” pra chegar, nem disse “tchau” pra sair. Ninguém resolveu a questão!! Na próxima aula, soubemos que era matéria nova e muito importante que ele ia explicar, e teríamos ganhado Cinco Pontos, se tivéssemos entendido a matéria e resolvido a equação!!! Foi uma bela lição e tenho certeza que muita gente há de se lembrar disso pra sempre, além de aplicar o exemplo no cotidiano!

Outra vez levantou-se da mesa e começou escrever um exercício no quadro. Todos conversavam sem dar atenção. Então sem se virar, falou em alto e bom som: “FERME LA BOUCHE!!!!” Palavra até então desconhecida, que pegou-nos de surpresa... e ficamos todos curiosos pra saber o que significava. E ISTO FOI SUFICIENTE PRA SILENCIAR A TURMA!!! No final da aula, após insistentes pedidos que traduzisse, o Jair nos disse: __Ferme la bouche é francês... significa: "CALEM A BOCA!”

Normalmente é o professor que vai às aulas, enquanto os alunos “matam”... Mas no caso do Jair, não!! Ninguém matava suas aulas porque todos adoravam aprender com ele, e ninguém queria faltar de jeito nenhum!!! Exceto o professor que algumas raras vezes (sim muito raras) não comparecia... Vou explicar porque: Nosso amado Jair tinha o fígado fraco. E qualquer coisinha já atrapalhava a saúde. Infelizmente a natureza o privou da faculdade de degustar o licor da terrinha – um destilado da planta Saccharum Officinarum Linnaeus. E como todos sabem, Jair era pessoa responsável e nunca foi consumidor assíduo desse mel dos deuses. MAS SE PROVASSE UM TIQUINHO SÓ QUE FOSSE, o seu fígado já estranhava e se “atrapaiava” todinho, impedindo-o de professar suas aulas por um ou dois dias no ano. Mas ninguém levava isso em conta e nem se importava, sabem porquê? Porque seu método de ensino era muito fácil de assimilar e aprendíamos com ele com tanta facilidade... que levaríamos dias ou semanas pra aprender de outra forma, ou com outro professor... Então, um dia só que o professor “matava a aula” não era nada – se comparado com muitos dias de aulas que ele nos ensinou! Ah! Saccharum Officinarum Linnaeus é nossa popular cana-de-açucar... E o "licor da terrinha"... bem, deixa pra lá...

Bom, professor Jair se aposentou. E tudo que eu tenho a dizer é que lamento profundamente, porque os alunos de hoje perderam oportunidade ímpar de conhecê-lo em plena atividade do magistério... Jair agora tem outras atividades... Ouvi dizer que mudou-se pra roça lá pras bandas da Volta Grande e cuida das vaquinhas, anda a cavalo... Deixou de lado a EQUAÇÃO pra se dedicar à EQUITAÇÃO. Foi o Maurício do Zé Costela que o viu por lá. Ele disse também que o professor anda com um boizinho de estimação pendurado na coleira como se fosse um cachorro... deve ser distração dele, TEM BASE? Decerto que anda com as contas de matemática – calculando produção – quantos litros de leite rende uma vaca que tem tantos centímetros cúbicos de úbere, quantas raízes quadradas possui um pé de café, ou quantos metros quadrado capina em volta do sítio com enxada de 40 cm. a duas horas por dia etc... Mas capinar, acho que não capina não. Deve ficar só nos cálculos mesmo... O fato é que todo mundo se lembra dele com muito carinho e tem saudade de suas aulas.

Professor Jair, ocê tá pensando que vai sair assim de fininho de nossas vidas, mas não vai não. Por favor, volte pra Escola e suas aulas, E FAZ NOVAS HISTÓRIAS, ou vamos lembrar das velhas pra sempre... O senhor que escolhe... e como é bom em matemática, CALCULE as probabilidades...

Seu sempre aluno, Marcelo.

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TemasCrianças e EscolaNatureza e LagoCausos e Histórias
— Soninha
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O TEXTO É DE MARCELO LAGOA

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