A MORTE NA CADEIA
Texto;Wenceslau Ávila
“...contamos as trivialidades da vida campesina, que às vezes para nós, tem delícias saborosas e às vezes surtos de emoções, cheios de angústias e de terrores.”*
Foi na pacata Guapé, um fim de tarde de domingo, que os céus escureceram nas lembranças das pessoas, quando um único estampido acendeu a mente de toda a vizinhança. Estou me referindo à vizinhança daquele sobrado que ficava logo depois do prédio dos Correios, indo em direção à igreja matriz.
As poucas pessoas que se encontravam na rua, pararam, sem saber para onde olhar e menos ainda o que comentar. O ar também parecia parado, tudo em volta dava a impressão de ter sido colado imóvel no tempo e no espaço, como o visgo que bloqueia todos os movimentos do pobre passarinho, prisioneiro pelas patas.
Um estampido, sim um estampido, como se as mentes fossem se dando conta, depois de estarem tomadas por um pesadelo, que as deixara desacordadas.
Todo mundo parecia falar em silencio, que precisava fazer algo, mas ninguém conseguia se movimentar, como em um pesadelo quando a gente sequer consegue correr. Até que alguém rompeu o silencio com um quase grito desesperado: é na cadeia!
Foi como uma fita que dá a partida para uma corrida ou talvez mais adequado para o lugar e para a época: uma porteira que é aberta para o gado sair em disparada na busca da grama verdinha. Não, nem grama nem pasto, todo mundo se enfiou foi pela cadeia adentro!
Mal passou a porta e que avançou para a saleta, que era do delegado, quem estava na frente deu uma freada brusca, que quase derrubou quem vinha atrás: ali, com a nuca no meio da mesa e as costas apoiadas na madeira, dois olhos bem abertos e pedrados, estava ele, o soldado de plantão. Da orelha esquerda que encostava no tampo da mesa um filete de sangue escorria e já estava chegando na beirada do tampo da mesa de madeira escura.
Nenhum preso na cadeia naquele dia, então o pobre soldado nem pode anunciar aquilo que passava em sua cabeça. Debaixo de seu pé esquerdo a cartucheira repousava, inocente, como se nada tivesse a ver com ela, enquanto fora ela, quem provocara tudo aquilo. Aos poucos tudo se soube.
No desespero de um coração apaixonado e abandonado, em terra estranha (o soldado não era de Guapé), naquela tarde triste de um domingo, onde o Faustão da época era um filme de Faroeste no cinema do Mario Tiburcio, o soldado, ainda que soldado não resistiu ao desprezo, ao abandono: a amante o havia abandonado! Quando o assunto é a paixão nem soldado resiste, aos males do coração! Nem precisou de um estudo de balística para se saber que os chumbos da cartucheira, penetraram pelo ouvido direito e houve até quem dissesse que saiu do outro lado, claro um exagero, como se cortassem uma tábua de pinho. Isto mesmo: matou-se com uma espingarda de caça. Soldado exemplar poupou até a sua arma de serviço, uma garrucha 380!
Eu mesmo não vi nada daquilo, já que do alto de meus 9 anos, nem ousaria chegar ali perto, mas ficava com o olhar atento, desde a calçada da farmácia do Roberval.
Quando diminuiu toda aquela muvuca e sem nem mesmo querer chegar mais perto, voltei pela mesma calçada, atravessei a rua Dona Agostinha, passei em frente a Loja do Joãozinho Benjamim e já quase correndo, observava a praça deserta. Lá no canto direito dela a casa paroquial,onde certamente o Pe. João tirava uma soneca, após um almoço farto e um bom papo com alguns fieis na sua grande sala.
Continuei subindo, depois de passar pela venda do Dari, com seu fumo de rolo segurando a bandeira da porta para não fechar com o vento e depois outra farmácia, a do Otávio, já ofegante ainda observei um Fordinho 28 parado na bomba ESSO de gasolina, ali no posto onde morava minha tia Licinha.
Quando entrei na ultima casa (a minha) antes da casa do Dr. Francisco, nem tinha mais forças para contar tudo que tinha visto. Me contentei em fazer um “upload” de tudo aquilo na minha memória, onde guardei até hoje. *Escreveu o mais ilustre dos guapeenses, de todos os tempos, Dr. Sano na introdução de seu livro GUAPÉ.






