19 de junho de 2020

A HISTÓRIA MOLHADA DA FAMÍLIA DO JOAQUIM TEIXEIRINHA

FORAM levados pelas águas . A vida deles era alegre, uma família numerosa criada numa bela fazenda banhada pelo Rio Grande, bem pertinho da Ponte Melo Viana, há poucos minutos da cidade. Tio Joaquim e

A HISTÓRIA MOLHADA DA FAMÍLIA DO JOAQUIM TEIXEIRINHA

FORAM levados pelas águas . A vida deles era alegre, uma família numerosa criada numa bela fazenda banhada pelo Rio Grande, bem pertinho da Ponte Melo Viana, há poucos minutos da cidade. Tio Joaquim e tia Maria, como eram chamados por nós, era porque ela era tia de nossa mamãe, irmã de nossa vovó. Eram onze filhos felizes naquela roça e a certeza dos pais de que lá viveriam sempre.

COMO descrever um pouco da vida deles? Claro, um pouco, bem pouco, pois, nada do que eu escrever será do tamanho da história vivida por essa família antes e depois das águas. Quem sentiu a perda de tudo foi o casal e os filhos, Lia, Malvina, Benvinda, Aparecida, Rosa era uma moça formosa, Sabina era mãe de Maria, virou anjo muito jovem e Mariana que tornou-se a mãe da menina. João, Zequinha, Dorcelino,Antônio são os filhos homens.

DESSA família, a Rosa formosa casou e mudou para São Paulo, Benvinda casou e mudou para Pinhuí, Mariana e Aparecida acompanharam os pais, a Malvina casou e ficou de lá do rio, nas terras dela, Lia casou e mudou para a uma fazenda na Jacutinga, o João casou e ficou em suas terrinhas da banda de lá da represa, o Antônio casou e ficou da banda de lá,o Dorcelino Teixeira casou e ficou em suas terras bem perto do arraial de Araúna, ele foi um dos formandos da primeira turma de oitava série do Ginásio São Francisco.Maria e Zequinha ficaram na casa em Guapé, na cidade. Ela é professora aposentada.

SEMPRE ouvi os causos que nossa mamãe contava porque ela conviveu muito com a família, da infância a mocidade, inclusive ela e a Lia, eram muito unidas, além de primas eram muito amigas, se davam tão bem que se apaixonaram pelo mesmo moço, esse moço, no caso, era meu pai. Ele namorou a Lia muitos anos, desistiram e minha mamãe pegou o galã da sanfona. A Lia casou e mudou e a mamãe casou e ficou. No Araúna.

AQUELA vida alegre da fazenda, movimentada, gente trabalhando, gente visitando, gente negociando...Era bica d’água, monjolo, engenho, curral, muito gado, chiqueiro, galinheiro, arado, carro de boi, fornadas de quitanda, tachos e mais tachos de doces, eram dezoitos casas contruídas nos arredores da casa do Teixeirinha, era muita fartura,muita esperança.

COMO acreditar que aquela fazenda, aquela casa que era tão amada seria engolida pelas águas? Muito triste. Resistiram a todas as notícias, até que chegaram as águas sujas e nelas misturou-se a esperança, a alegria de viver,tudo turvo . O prejuízo do Tio Joaquim foi gigante e de tudo que tinha recebeu dinheiro que nem deu para comprar uma chácara em Passos, bem ao lado da Estação Ferroviária, a nova morada da família.

O BONDOSO Teixeirinha não queria abandonar suas terras, sua casa. A família queria sempre prolongar a despedida fatal e mais um pouquinho,mais um dia,uma noite e foram vivendo suas despedidas silenciosas e doídas. Insistiram tanto, prolongaram tanto a despedida que quando viram as águas tragando a ponte, correram com tudo, roupas, objetos, móveis, tudo que não tinha tanta importância pra eles naquele momento, lotaram o caminhão e atravessaram a ponte com a metade dos pneus dentro d’água.

O ZEQUINHA levou seu gado porque não tinha mais pastagens, daí voltou, encheu o jeep e foi antes do caminhão, levou alguns irmãos. Quem dirigiu o caminhão foi o Tião Sabino,motorista do Lazinho Martins, levou o casal na carroceria, já alguns parentes que ficaram, sem tempo de correr, foram tirados de helicóptero, é que nas baixadas as águas chegavam mais depressa. Os duzentos alqueires que sobraram, os filhos casados, pelo que sei, continuaram nas casas onde estão até hoje. Como todas as outras casas ficaram submersas a maioria não tinha pra onde correr, onde se abrigarem, correr, só mesmo pela estrada.

NÃO LEVARAM tudo, o resto ficou no silêncio, o resto era tudo e foi na lembrança, o resto virou saudade, o resto foi no coração em forma de dor e desencanto, o resto foi no último olhar de despedida e assim atravessaram a ponte pela última vez. Já não viram mais as águas do Rio Grande de tantas boas histórias, o rio bonito vizinho dos Texeirinhas. A água cobriu o seu leito e era suja.E o caminhão foi pela estrada triste, levando a mudança de uma família triste que deixava para trás sua paisagem agora triste. O destino era Passos.

O TEMPO, esse passou, eles, foram levando a vida nessa chácara, os mais jovens, cheios de ilusão, se encantaram pela cidade, principalmente o Zequinha que teve seu auge de galã, mas Tio Joaquim, Tia Maria e os mais velhos era só saudade e o amor por Guapé falou mais alto, não suportaram a distância, alguns anos depois venderam a chácara e voltaram com a mudança num caminhão bem mais leve de dor, porém, vazio de esperança. Na Cidade Nova compraram uma casa e é nela que viveram o resto de suas vidas, é nela que ainda hoje vivem o Zequinha e a Maria Teixeira Mota, professora.

A D.MARIA do Teixeirinha era um doce de ser humano, falava baixinho, pouco, vestia saia longa, um pouquinho franzida, combinação por baixo, uma veste antiga, paletozinho curto de manga, se saía, o cabelo era esticado e de coquinho, aqueles coquinhos antigos que as vós não usam mais, dentro de casa usava um pano sempre branquinho amarrado na cabeça, daqueles que as mulheres usavam para assar quitandas. Sua figura de paninho é a que guardo. Suas roupas eram tão limpinhas! Gracinha era ela.

O SÔ JOAQUIM Teixeirinha era uma figurinha das melhores, digo figurinha porque era miúdo, baixo, muito sério, de uma humildade de dar gosto. Usava camisa de manga comprida e tinha o interessante costume de amarrar a correia fora das presilhas, mais abaixo, sobrava calça acima da correia. Tinha o Sayhum como médico e amigo e só andava a pé, sempre, carona só aceitava do Dr. Sayhum, mais ninguém, nem adiantava oferecer.Trabalhador, honesto e muito querido.Criou um famião.

AH! LEMBRO-ME da Tia Maria,que era irmã de minha vó Mariana contando de sonhos que tinha dormindo:

_ Quase toda noite é isso, sonho que tô na nossa casa da ponte trabaiano, é uma labuuuta danada. _A senhora sonha a noite inteira? _Acho que é, porque eu durmo duma banda só. _A senhora lembra de todo o sonho? _Lembro, mas eu trabaio tanto no sonho e acordo cansada que só veno. Carrego lenha e graveto po fogão e as panela de comida é um tamanhão. Tem noite que eu mato porco e fico na labuta cuncoisa que é de verdade. _Toda noite a senhora sonha? _Num sei, mas eu faço tudo que nóis fazia, é lavano roupa agachada na bica d’água, é ralano mandioca pa fazê porvio e farinha, é massano quitanda e limpano forno. _Mas o corpo da senhora dói? _Depende do serviço, onte eu sonhei e soquei arroz no pilão, mas era arroz que num cabava mais, meus braço doeu o dinterinho, de certo de tanto esforçá.

A PROSA foi verdade,viu?Escrevi do jeitinho que foi porque nunca esqueci.

DOS filhos,Rosa, Benvinda,Malvina, Sabina, Antônio, Mariana, Aparecida,Zequinha, já bateram asas. Lia,hoje mora na cidade, João comprou também casa aqui, Maria na mesma casa aqui e Dorcelino firme e forte no arraial.Lia está com 94 anos.Viche! Muitas histórias porque são muitos netos, bisnetos,tataranetos.

ESCREVI um pouquinho da história que conheço dessa família Teixeirinha.É o que sei para contar, imaginem, então, cada um deles contando suas lembranças em detalhes e sentimentos.

VIVA OS FILHOS, NETOS, BISNETOS E TATARANETOS DO JOAQUIM TEIXEIRINHA!

ABRAÇO A QUEM VISITOU UM DIA AQUELA FAZENDA!

ABRAÇO DO ‘’BÃO DE PROSA’’.

(Essas são as fotos que consegui, graças a Edilene, neta.)

PessoasMariaTiãoRosaZequinhaRosaJoão
LugaresGuapéCidade NovaSão FranciscoRio GrandePassosAparecidaFazenda
TemasFamília e CasamentoReligião e ProcissõesBailes e FestasCidade Velha (saudade)Comércio e TrabalhoEsporteCrianças e EscolaNatureza e LagoCausos e HistóriasComida e Receitas
— Soninha
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