Texto:Wenceslau Ávila.
A PARTIDA
Ali, o quarto dela. Por um bom tempo ela ficou estendida naquela cama, o olhar virado para o teto mas tão fixo que mais parecia estar preso ao infinito. Ao aproximá-la, por mais que alguém se manifestasse, espontaneamente jamais ela dava atenção – afinal esse mundo não parecia pertencer a ela. Mesmo assim estar ali para nós bastava pois quando alguma graça ou força divina em que se obtinha uma fala ou melhor ainda, um sorriso dela, o mundo vinha abaixo tamanha a satisfação em trazê-la para a nossa realidade. Longo foi o tempo em que ela, presente, nunca fazia parte de nosso viver. Conformados, no fundo isto nos bastava. Foi só no dia que ela reagiu, que o mundo caiu de verdade pois sentimos que aquilo seria o aviso de que ela poderia não continuar mais conosco. Na verdade nem foi ela mas seu corpo que parecia querer avisar que aquele suporte, nem aquele mínimo que ele concedia ele parecia estar mais disposto a garantir. Hospital, soro, balão de oxigênio! Tudo aquilo que temíamos ou que torcíamos para não acontecer estava chegando. Em nossas preces o pedido era para que não houvesse sofrimento afinal tudo que lhe foi imposto ela suportou com resignação e paciência. Uma violência agora nada iria justificar. Os paliativos tem esta virtude, a de nos ajudar a chegar ou melhor a de poder esperar sem que o corpo padeça ou a mente fique tão inquieta. Mas nada é eterno, nem a esperança, um dia o ciclo fecha. Este dia, por tantas vezes afastado da memória, empurrado pra longe cada vez que aflorava, parece que agora não aceitaria em ir embora. É quando vamos buscar nossas forças, até mesmo onde nunca imaginávamos que elas pudessem estar e assim ajudá-la a viver este momento, a completar a sua missão, a vencer esta ultima etapa, qual seja a de passar para o outro lado. Impotentes, face ao destino, nos resta apenas segurar as mãos, tirar do peito engasgado, aquelas que sabemos serem as ultimas palavras que ela irá ouvir. Neste instante nos sentimos tão pequenos, insignificantes mesmo, face a todas as forças que traçam o nosso destino mas por outro lado certos de que se ali estamos é porque temos uma missão, a missão histórica, solene, de ajudar neste rito de passagem. Com esta energia nos tornamos eloquentes, verdadeiros poetas e, é quando formulamos as mais belas frases, porque brotam do coração, para reafirmar para nossa querida mãe, que a sua missão foi cumprida e que agora ela poderia ir em paz, com sua alma. Conosco resta o vazio, o vazio que nenhuma lembrança apaga. Adeus, mamãe!

