12 de setembro de 2018

TEXTO DELE OU DELA...NÃO É PARA COLOCAR O NOME

COMEÇA ASSIM: AQUI está um texto que mais parece a página rasgada de um romance não escrito, exatamente como em nossa adolescência, onde livros proibidos eram lidos às escondidas e quando não dava tem

TEXTO DELE OU DELA...NÃO É PARA COLOCAR O NOME. COMEÇA ASSIM:

AQUI está um texto que mais parece a página rasgada de um romance não escrito, exatamente como em nossa adolescência, onde livros proibidos eram lidos às escondidas e quando não dava tempo, páginas eram arrancadas para serem lidas no banheiro. O livro se chama então “Romance não escrito” e o pseudónimo do autor ou autora é “Flor do Cafezal em”...

DE MODELO A BOIA-FRIA!

UMA sede enorme em entender o que acontece comigo. Modelo eu sou, nos sonhos de menina, nascida na mais remota zona rural das Minas Gerais - boia-fria eu sou nas outras 24 horas de meu cotidiano. Aqui, perdida entre milhares de pés de café, quando a noite apaga a visão do cenário que me envolve, fica fácil me transportar para horizontes de beleza e glamour, onde não é difícil, ver-me evoluindo entre sandálias de princesas e vestidos de rainhas!

JÁ A realidade do meu cotidiano é cercada por enormes pés de café, adubos e tratores! É justo ter ambição pelo infinito quando não se dispõe de asas de águia? Como posso sonhar em desfilar em passarelas, se no meu cotidiano só posso vislumbrar cigarros de palha, cachaça de alambique ou alguns copos de chapinha?

MINHA vida, até meus 24 anos (hoje) não chega a ter uma história, talvez melhor imaginar um mosaico de dramas fosse mais adequado. Aos 12 anos, aconteceu o mais severo desentendimento com meu pai. Aos 16 me sentia toda poderosa – “eu tinha a força”, a força que só as drogas pesadas, conseguem dar. Adultos, na idade de meu pai, eram meus amigos, meus mentores, acreditei neles como libertadores de um jugo que achava que meu pai tentava me impor. Duro aprendizado. Vitima inconsciente daqueles que eu via como protetores fui aos poucos sendo consumida por um sistema onde só eles me controlavam.

NA CONDIÇÃO de libertadores, pelas drogas, me entreguei a eles de corpo e alma, literalmente. Com meus mentores, fui transformada no que quiseram. Perdi então o controle de minha vida, de meus sentimentos e até mesmo do meu direito de recusar a fazer sexo. Distante de uma família que pudesse me dar guarida, a minha, naveguei pelas fronteiras de mundos que até então desconhecia, onde droga, sexo e álcool pareciam libertadores no confronto com um mundo agressivo e injusto.

TATUAGENS, piercings, os mais agressivos e, sexo, muito sexo, como se viver a vida fosse apenas o êxtase do instante, como se não mais houvesse possibilidade de continuidade, de um amanhã. Tudo era instável, incerto, inseguro – perdida no mundo, a família, ponto de referência, desapareceu do horizonte e ficou como uma simples lembrança de algo bom que às vezes se tornava insuportável. Não busco piedade, nem compaixão, o caminho que trilhei foi uma escolha minha e só quero dela, fazer um aprendizado.

AOS 24 anos não posso acreditar que o mundo acabou para mim. Se meus aliados até hoje não contribuíram para o meu bem-estar, para minha felicidade, espero ainda encontrar pessoas que possam me ajudar a dar sentido a tudo que vier a acontecer na minha vida. Mais do que amadurecer como o outono, prefiro ainda encantar como as flores na primavera. E assim, um dia surgiu e agarrei a oportunidade de ocupar as passarelas e desfilar usando meu corpo, um presente precioso de meu criador, para levar glamour e beleza às pessoas. Vivi os meus quase dois anos de curso de modelo em uma escola e lugar modestos, como se fosse um sonho. Conheci pessoas, presenciei dramas de mães e filhas chocadas com a derrota, estive muito próxima de futuras grandes estrelas mas também das maiores frustrações.

MEUS 15 minutos de fama duraram mais do que 15, mas não o suficiente para que fincasse raízes a ponto de conseguir continuar voando com minhas próprias asas. Não consegui chegar à outra margem, fui devorada antes pelas asperezas de um percurso de incompreensão na família, que me empurrou de volta para um mundo selvagem e desumano.

CONSEGUI, não sei como, pular deste trem que, de novo apareceu como a única salvação mas que, mais cedo ou mais tarde, me levaria para o abismo (o das drogas). Desta vez eu disse não e aqui estou, no meio do nada ou melhor entre enormes pés de café, cheiro de adubos, de inseticidas no ar, que às vezes provocam a minha rinite, sonhando com as passarelas ou com as peças de lingerie que um dia aprendi a fazer e sem mais nada, a não ser um terrível cansaço de tudo.

NÃO fossem minhas filhinhas, sim tenho três, as tive sozinha, muito provavelmente tivesse desistido de continuar com esta vida sem sentido. Seria injusto de minha parte dizer que o mundo fora ingrato comigo, talvez eu é quem tenha sido inimiga mortal, de mim mesma.

ARREPENDIMENTO não seria o termo para explicar o meu desencanto com tudo – às vezes me pergunto se o mundo já não acabou para mim., tamanha a falta de perspectiva, a nuvem negra que me impede de enxergar qualquer coisa à frente, além do desalento. O que fazer? Onde e a quem mais pedir ajuda? O que afinal me resta dos tempos que os sonhos, não os pesadelos, ocupavam minhas noites? Quanto às lingeries não devo ter perdido a habilidade em produzi-las, da “quase modelo” de 1,72m com 51kgs, acho que ainda mantenho o corpo que carrega dois olhos, enormes e verdes, que me fazem ser vista, mais do que minha altura, antes mesmo que eu veja as pessoas. Pelo menos é o que meus amigos afirmam.

Os SONHOS vão sendo acalentados ao ritmo da peneira na “bana” de café, em meio a dezenas de peões e ramas de café, sob um sol escaldante que torra minha pele frágil e clara, e no canto da boca um “palheiro” (cigarro de palha), como um roceiro autêntico. Essa, sou eu!

Flor do Cafezal

PessoasRosaRosa
TemasFamília e CasamentoCrianças e Escola
— Soninha
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