Texto de Wenceslau Ávila
MARIA ROLINHA
Maria Rolinha, uma personagem de uma Guapé que continua viva! Uma vez mais vou sair do agora e ir para o outro lado do espelho. Pronto, já estou descendo a Rua Dona Agostinha, quase esquina com a Padre João Gualberto, em Guapé, do mesmo lado do sobrado do João Larico, marido da Ivone, minha prima e quase em frente da casa, um pouco afastada, do Agripino.
Continuo descendo, em direção à matriz e lá embaixo, quando termina a descida e começa a subida, em minha direção está ela, a Maria Rolinha, parada, olhando fixo pra frente ou seja, pra mim! Avançando um pouco mais, já observo aquele olhar do outro mundo e na boca uma baba, que molha os lábios, entre dentes isolados na boca, como se fossem arvores em campos de serrado. Maria Rolinha, uma figura emblemática, nem boa nem má, que fez parte do universo de algumas gerações de crianças e de adolescentes dos anos 1950 em Guapé.
Maria Rolinha certamente era portadora dessa enfermidade, na época sem nome, que hoje acomete uma parte representativa dos nossos idosos – o Mal de Alzheimer. Dedução exclusivamente minha, agora que convivo de perto com este “flagelo” dos tempos modernos. Na minha lembrança, como nossos personagens de hoje fazem ou tentam fazer, ela saía perambulando pelas ruas, com uma mochila na ponta de um bastão sobre o ombro, cheia de cacarecos, alguns inclusive pendurados por barbantes, se chocando e assim anunciando a sua presença, à distância.
Crianças, muitas delas se viam aterrorizadas, um medo certamente alimentado pelas frequentes ameaças das mães de então: “fique quieto senão vou dar você pra Maria Rolinha”. A figura era de fato apavorante: cabelos desgrenhados, um olhar penetrante e ameaçador, aquela boca vermelha e molhada, que não parava de mascar fumo.
Certa feita, Dona Nehn, minha sogra, ela que fora a última diretora do Grupo Escolar de Santo Hilário, se deparou com a Maria Rolinha, em uma rua de Guapé, sem ninguém por testemunha e (instinto de sobrevivência) ameaçou sair em disparada, quando a Maria Rolinha, com aquela voz entre dentes proferiu: “não adianta correr, nois é 7, se você sair correndo daqui, lá na frente vai encontrar outra de nois!
Assim, se deparar com ela em carne e osso, pelas ruas, chegava a ser amedrontador. Para dizer a verdade até os adultos ficavam receosos: sua arma era o bastão e a corrida ao encalço de quem a desafiasse, principalmente se fossem moleques. Esses ela não respeitava nem junto dos país, todos para ela tinham a mesma cara: atiradores de pedras!
Por tudo que sabia da Maria Rolinha, naquele dia ao ver-me frente a frente com ela, minha primeira reação foi abaixar e apanhar uma pedra! Não..não! Não fiz uso da pedra, simplesmente passei para o outro lado da calçada, nem tão longe mas também nem tão perto, em condições de disparar rua abaixo, para escapar do alcance do seu terrível bastão.
Na mente da criança que eu era, no fundo, assim para mim tudo parecia normal, toda cidade devia ter a sua Maria Rolinha, eu pensava, assim como tinha seu padre, seu grupo escolar, sua igreja. Mais um personagem que povoara nossas cabeças entre tantos outros, fossem eles reais ou imaginários, que ao longo dos anos foram compondo isto que somos hoje: adultos cheios de histórias, de descobertas e de vivências que compuseram o tecido de nossa identidade e de nossa personalidade.
Felizes, os que tem histórias, que podem virar estórias, para preencher nosso cotidiano de personagens modernos, entulhados de tecnologia e de aparelhos que nos distanciam de nossas verdadeiras origens. Em tempo: nunca fiquei sabendo como foi o fim da nossa “querida” Maria Rolinha!




