QUARESMA?! VICHE! QUE MEDO ERA!
Para jovens que não viveram,nem ouvem contar,e para adultos recordarem e perceberem tantas mudanças nos costumes.
Citações De Como Era a Quaresma No Guapé Do livro ''Guapé e outras Histórias'' de Walquires Tibúrcio...
RESUMINDO... ''-Os 40 dias da quaresma era penitência, sacrifício, renúncia, -Época de recolhimento, reza, extremado respeito, -Minha vó Rosa não comia carne nos 40 dias, -Os violões ficavam sem cordas e ninguém cantava, -As moças não passavam pintura, ninguém casava, -Baile e festa, nem pensar, -Aos meninos dizia-se que o capeta estava solto, _Que mordida de cobra na quaresma nenhum remédio curava, para impedir que a molecada nadasse no córrego que cortava a cidade, -Quem brigasse na quaresma ia arder no fogo eterno do inferno, -Menino que xingasse fedaputa tinha de lavar a boca com água- benta, -Que os lobisomens andavam á solta,nem pensar sair a noite, -Que a rua de baixo era assombrada e de noite ninguém passava, -Nem em frente ao grupo novo pq foi feito onde era cemitério, -Ninguém comprava, ninguém vendia, -Guardava-se os ramos da procissão,em dia de tempestade eram queimados para proteger dos raios, -Vindos de Campanha, padre Lucas Maia e padre Gurgulino sempre foram lembrados pelos sermões que arrancavam lágrimas, -Na sexta-feira da Paixão, nossos vizinhos não varriam a casa, _A comida era feita de véspera, _As mulheres não penteavam cabelo, - À noite,procissão do enterro,a cidade era iluminada por tochas, sinos dobravam finados,a banda do João Novato tocava a Marcha Fúnebre,com o Tião Cirino arrancando no baixo plagentes acordes que envolvia tudo em um manto de infinita tristeza, -As pessoas com barbante,mediam partes do corpo da imagem do Senhor Morto e guardavam,isso para em caso de dor, como no braço,o barbante era colocado com fé.'' (O texto do livro foi muito bem escrito,porém longo para digitar.Está na página 113, 114, 115, 116, 117.)
---..---..---..---..---..---.. AGORA EU.SONINHA NA QUARESMA
NA SEMANA SANTA DE MINHA LEMBRANÇA E OS COSTUMES?
AH! Aí já bem diferente, embora o medo ainda estivesse envolto, tentando ser raiz. As famílias das roças vinham em peso para Guapé. As casas ficavam cheias. Muitos iam e vinham todos os dias da semana e muitos vinham e ficavam em casas de parentes ou de amigos, outros tinham casa na cidade, daí traziam latas e latas de quitandas, carnes, os frangos. As famílias na cidade se preparavam também para receber as visitas. Dos fornos saíam latas e latas de coisas gostosas para os cafés. Semana Santa era um marco que mexia com emoções.
E A DELÍCIA DE ESCUTAR?
LEMBRO-ME de ouvir outras lembranças vividas, era gostoso acolher os casos antigos de pessoas queridas, minha mãe, meu pai, tios, vó, vizinhos, até vejo D.Nenen do São falando no seu tempo de moça e das irmãs Maria, Gêra, Diquinha, Zizinha, Luzia, quando cheias de ilusão e fé se preparavam dias e subiam depois no carro de boi, a condução da família, D.Rosa, as filhas bonitas, as latas de coisas gostosas, o carro cantando e o coração delas também. Dizia ser uma festa muito gostosa a viagem da família puxada pelos bois rumo a cidade.
E O LOBO DA QUARESMA?
ESSE desgrameeeento mataaaava a gente de medo, então o jeito era ficar em casa. Morávamos na Cidade Nova e do hospital até na praça não haviam casas, era bem deserto, a gente escutava até o uivo dele. Passaram muito medo ''ninóis'' e olha que na minha época era só medo, no tempo do Walquires que escreveu o livro era pavor.
E O JOÃO JILÓ?
AI! AI! AI! O João Jilóóóóó! VicheMaria! Você leu? Credo! Aquela página do livro primário ''As Mais Belas Histórias'', pelamor de Deus! Até hoje me lembro nitidamente do livro, da página, da ilustração da lição do ''João Jiló''. O João saiu para caçar na Sexta-Feira da Paixão, ah! Não! Matou um galo, botou na panela pra cozinhar, mas... Na hora que punha a tampa pra ferver, o galo nada de morrer, botava o pescoço pra fora e gritava triste... _''Dói, dói, João Jiló!'' Ai! João Jiló! O João Jiló foi marcante para matar NÓIS de medo na quaresma. Até hoje, dói, dói, João Jiló...
MEIA NOITE! SÁBADO DA ALELUIA!
COMO ERA?
A TURMA da minha idade, depois da procissão, os moços, esperavam meia-noite para sair, beber, comer carne,''quando saía'', e isso da década de oitenta pra cá. Hoje quase todas as comunidades fazem suas celabrações com procissão e tudo, então, o pessoal não enche mais a cidade como era. E desde quando a juventude perdeu o medo do Lobo da Quaresma, os costumes também foram mudados e tristemente hoje não deixam o copo de bebida nem na Sexta-Feira da Paixão.
A QUEIMA DO JUDAS
FOI um costume,lembro-me do Pé de Pato lendo um testamento perto do centro Pastoral e de um Pau de Sebo com a meninada tentando subir.
E AS CONFISSÕES?
CONFISSÃO, a gente pensava e até anotava os pecados.Os meus eram tão bobinhos e repetidos durante anos que enjoei: _Briguei,falei nome feio,desobedeci o papai e a mamãe. DESCOBRI que eu não mentia, eu não brigava nem com meus irmãozinhos, nunca nunquinha desobedeci meus pais e meu nome feio sempre foi ''desgraça pelada'', falar isso e merda pra mim é uma coisa só, falo quando machuco.
AH!Deixa esses pecados bobos pra lá.Pecado é não amar, não ter compaixão, não ajudar quem precisa, não correr atrás de uma vida digna para os seres humanos das nossas vistas ou fora delas, calar nas injustiças.
TERMINANDO minhas simples anotações, deixando os medos doidos lá atrás, mas, achando graça dos exageros e crenças exacerbadas, tenho certeza que a fé, o respeito e o amor só faz bem e engrandece a alma humana, seja ela nos costumes dos católicos, qualquer outra religião ou nenhuma.
TUDO vira saudade. Que saudade do João Jiló! Dói, dói, dói, João Jiló!




