PARA OS LEITORES DO ''BÃO DE PROSA''... . . Lembranças de WENCESLAU ÁVILA . . "AS HISTÓRIAS QUE A HISTÓRIA NÃO CONTOU" . . ROMARIAS E ROMEIROS – APARECIDA DO NORTE NO ANOS 1950!
Desde a mais tenra infância o Santuário de Aparecida do Norte exerceu um grande fascínio na mente que se formava, a minha. Ainda mais porque, uma outra “Aparecida”, a do Sul ou Jacutinga, já havia sido cenário de meu batizado(de que não me lembro) e de minha primeira comunhão, da qual me lembro muito bem, com minha roupa de marinheiro! Porque marinheiro, não sei e agora não tenho mais como perguntar pra a única pessoa que poderia me dizer - minha mãe! A alguns poucos anos, retornando de um cliente no Vale do Paraíba, meio da tarde, passando pela Dutra em direção a São Paulo, não pensei duas vezes: “vou entrar na igreja, a velha, de Aparecida do Norte. Foram momentos únicos, aqueles minutos no frescor da tarde, que de fora estava muito quente, no interior daquela pequena igreja,carregada de símbolos desde sempre! Aqui cabe a minha frase, recorrente, “os lugares tem alma”! Guapé sempre teve a tradição das romarias para Aparecida do Norte e foi no final dos anos 1950 que chegou a minha vez. Uma quebra de paradigma, pelo menos no que diz respeito ao adágio português: “Boa romaria faz , Quem em sua casa fica em paz” Morador da roça, com pouquíssimas idas até à cidade, saber que iria sair de Guapé pela primeira vez e mais, conhecer varias cidades, encheu meus dias de agitação. Meu pai, claro foi quem tinha tomado a iniciativa. Junto com a Yolanda e também o Lazinho, dono do ônibus, quase todos parentes, dezenas de pessoas lotaram a jardineira. Não saberia mais dizer em que época do ano isto aconteceu, o que sei muito bem é que a “matula”, no caso frango com farofa, era abundante, pelo menos em nossas malas de papelão duro. Deixamos Guapé ainda muito cedo, escuro, passamos por Ilicinia e me lembro de uma parada, certamente para pegar mais alguém, perto da casa com alpendre logo depois da rodoviária, seria do meu antigo colega de Carmo, o Lázaro?. Ilícinia, a primeira cidade depois do Guapé! Seguimos até Santana da Vargem, là mais parentes, gente do Vadinho, iria se juntar ao grupo. Dona Mariinha, mãe do Lazinho já se encontrava a bordo. O trajeto foi longo, demorado, talvez com o calor, a sonolência foi chegando, para dar a oportunidade de, acostado entre pais e irmãos (toda a família estava ali), deixar a fantasia se distribuir nos sonhos e criar um cenário de santos, de imagens e de fé. Itajubá é um nome que ficou bem gravado, afinal seria a ultima cidade antes de enfrentar a temida Serra da Mantiqueira. Serra da Mantiqueira, com sua estrada que serpenteava por encostas íngremes, onde o motor urrava no seu limite, mas eu estava confiante, tinha acabado de ouvir do Lazinho para meu pai que o “motor era a única coisa que ele não descuidava em sua jardineira” Uma imagem bem apagada registra a descida, já do outro lado, em direção a Piquete, outro nome nunca mais esquecido. Já fazia noite de novo. Guaratinguetá e finalmente Aparecida do Norte. O hotel ficava muito próximo da Basílica, do lado esquerdo antes de se chegar à escadaria. Certa angústia, quase sem controle - chegar a essa escadaria e ver, com meus próprios olhos, a marca da ferradura no degrau, da mula daquele homem que desafiou a Santa, a nossa santa padroeira, dizendo que entraria em seu santuário sagrado, no dorso da sua mula! A mula sequer passou a porta de entrada: sua ferradura ficou cravada no cimento, como se pisasse um cimento ainda mole, recente! Tirada a ferradura, a marca continua lá! Uma vez no interior da basílica, outra sensação, nunca antes experimentada: um misto de frescor repentino, de mistério e de sobrenatural. Paredes povoadas de santos, anjos que volteiam, olhos que te enxergam de verdade. Uma outra dimensão para uma cabecinha inocente e completamente ignorante das intrincadas interferências de uma fé pura e quase real, concreta. Naquele momento não imaginava que seria interpelado, sensibilizado pelos ares das basílicas e catedrais que, muito depois, visitaria mundo a fora – a magia dos lugares sagrados, carregados de mistérios, de dramas e de histórias! Nossa grande viagem, a viagem da minha vida de então, reservava muitas outras surpresas. Visitar o presépio elétrico foi penetrar em um mundo de fantasias e de engenhosidade sem limites: mini-monjolos que funcionam como grandes, água que corre, animais que se movimentam e claro a manjedoura, misteriosa, mística, quase real.
Ainda fomos conhecer a casa assombrada, povoada de seres estranhos e amedrontadores. Naquela idade e confrontado diuturnamente apenas com coisas muito concretas, de uma roça nos anos 1950, me sentia transportado para uma dimensão, que só conhecia dos livros, como a Bíblia ou de algumas poucas cartilhas da escola. Pouca coisa mais restou daquela memorável experiência, a descoberta de um mundo, infinito em possibilidades e mesmo assim tão perto de nossas vidas de criança, pois que acessível, graças à fé de nossos pais e a união de nossas famílias. Restou sim este registro, documento histórico que faz emergir tantos rostos: a foto da Romaria da Aparecida do Norte! Precisei esperar décadas pra descobrir que a viagem não termina na volta, continuamos viajando muito tempo depois ao reviver os acontecimentos que ocuparam nossas mentes durante o curto espaço de tempo da viagem. Nunca mais fui o mesmo!




