ONTEM PUBLIQUEI FALTANDO A FOTO.“Tardes de domingo” Em tempos mais remotos “morar na roça” ou o (mais glamoroso) “morar na fazenda”, não era tão incomum. Todos nós já visitamos algum dia uma fazenda centenária como as que ainda existem perto de grandes centros, como na região serrana do estado do Rio ou nos arredores de Campinas. Até os meus 10 anos também “morei na roça” e, quando chegava o domingo era sempre uma excitação à parte: colocar a roupa nova, o terninho de brim, a botina lustrada e hop, na garupa do Cavalo Preto. Naquele domingo, apenas eu e meu pai - primeiro a missa, aquela das 11 horas, na igreja matriz, depois encontrar as pessoas na grande praça: conversar, negociar e no meu caso, ficar ao lado das rodas de adultos, admirado com a altura do sino da igreja. Depois, uma passada na loja do Joãozinho Benjamin, bem na esquina, com suas estantes em madeira, cobertas de tecidos em diagonal e uma vez no seu interior, sentir aquele cheiro característico de tecidos novos e, às vezes, comprar alguns metros de brim ferro. Naquele domingo, meu pai havia prometido um programa especial, não voltaríamos de imediato para a “fazenda”. Fomos inclusive almoçar que ficava na rua do antigo ginásio, um pouco abaixo do Agripino. A expectativa era enorme: pela primeira vez eu estava indo ver um filme no cinema (Guapé, na metade dos anos 1950, tinha cinema sim!): meu pai naquela tarde, iria me levar pra ver um faroeste. Minha cabeça de 6, 7 anos, cujas únicas figuras irreais eram as da cartilha do primeiro ano, não conseguia imaginar como poderia ser um cinema, ainda que meu pai me explicasse, com uma paciência quase infinita, como seria tudo aquilo. Minha primeira impressão, ao entrar, foi de uma igreja, meio escura, só que lá na frente, ao invés de altar, uma parede muito branca, a tela, assentos confortáveis e um zum zum que não era comum na igreja. Muita gente naquela tarde de domingo! É certo que a atração era “importante” (a maneira de meu pai referir-se a fatos marcantes). Já sentados, a sala mais escura ainda, começou uma música que eu nunca tinha ouvido antes e, apesar de exótica para meus ouvidos, desabituado de melodias, a não ser as da igreja (não tínhamos rádio em casa), fiquei logo interessado e dediquei mais atenção, até agora apenas ao som, que saía eu nem sabia de onde. Só sabia que me agradava muito. Ouvi meu pai dizer baixinho: isto não é o filme, espera um pouco. Do filme, não sei dizer nem o nome e talvez nunca saberei, o que me sobrou foram imagens de cavalos esparramados por colinas empoeiradas, índios vermelhos lançando flechas, homens montados em cavalos, os mais garbosos, como nunca imaginara e aquelas planícies imensas! Difícil dizer o que mais me impressionava, se os galopes, se a música, se o campo de batalha ou se tudo aquilo. Meus cinco sentidos foram, todos, agraciados com as sensações (sentidos) daquela bela tarde de domingo. Na minha retina ficou “para sempre” ou pelo menos até hoje, aquele turbilhão de gente, cavalos e poeira, tanta poeira que escondia os personagens. Se meus olhos fossem visíveis, a mim, naquele momento, veria faíscas explodindo em todas as direções, tamanha era a emoção resultante da variedade de movimentos, de gente, de surpresas vindas de todas as direções, como as flechas que cruzavam os ares. Curiosamente, fomos pra casa, percorremos os nove quilômetros da volta, quase em silêncio no lombo do Cavalo Preto; devíamos estar absortos, viajando no mundo encantado que tinha se revelado para nossas mentes rudes, um mundo que desconhecíamos até então. Nunca mais assisti a um filme, em uma sala de cinema, ao lado de meu pai. Depois daquela tarde, o mundo pra mim, tomou outra dimensão, passou a ser tão grande que tive a sensação que seria muito bom sair para conhecê-lo. Teria meu corpo errante, habitado por um coração vagabundo, descoberto naquele instante sua vocação de alguém curioso das coisas de, cada vez mais longe? Não sei se isso foi bom ou se foi ruim (para empregar uma expressão tão recorrente em minha filha quando pequena), o que sei é que, ao voltar para a “minha roça”, sentia já um aperto no coração, pois começava a perceber ali, uma nostalgia do lugar, consciente de que mais cedo ou mais tarde eu a deixaria. Isto, de fato, aconteceu 10 anos depois! Em janeiro de 2013, com a baixa da água da represa, voltei ao lugar onde antes existiu o cinema e na casa dFico a pensar que ninguém mais poderia ter contado esta mesma históriao “Zé Gracia” (ex-delegado de polícia e tio), ali pude localizar (e registrar em imagens) as bases do prédio onde ele havia sido construído.
31 de julho de 2013
ONTEM PUBLIQUEI FALTANDO A FOTO.“Tardes de domingo”
Em tempos mais remotos “morar na roça” ou o (mais glamoroso) “morar na fazenda”, não era tão incomum. Todos nós já visitamos algum dia uma fazenda centenária como as que ainda existem perto de grandes

— Soninha


