LEIA! É MUITO DE NOSSA HISTÓRIA ANTIGA. Conseguir o registro delas me deixou feliz.
LAVADEIRAS DA CIDADE VELHA
Lava Roupa Todo Dia... Que Alegria! Lá Na Ponte Ou Na Pinguela... Que Poesia!
ENTRE tantos causos e lembranças, há tempos quero falar das ‘’Lavadeiras’’ através de uma muito especial, a D. Onofra do Pófe, hoje com 94 anos e uma das mais famosas porque mesmo depois das águas, sempre foi essa sua bonita profissão.
PEDI a Leila para me levar até sua casa, foi um prazer revê-la, fomos vizinhas e há tempos não a via. Vou registrar pedacinhos da prosa. _Ê, D. Nofra! Começou cedo? _De menina a moça, não! A gente morava na roça, tinha fartura de tudo, mas aí meu pai morreu e viemos pra cidade, sem ele a vida ficou difícil. Acabei casando, começou a nascer os fios e o jeito foi enfrentar. _Tem lembrança da primeira mala de roupa que carregou na cabeça? _Foi da D.Ari do Sô Agripino, um dia na semana era dela. Cada dia para uma família. _A senhora era feliz descendo pro cóRgo todo dia? _Demais, eu tinha muita saúde e juntar com as companheiras era só alegria.
COMO COMEÇAVA O DIA DAS LAVADEIRAS?
TOMAVAM o café na casa da patroa, abriam um lençol e amontoavam as roupas sujas, daí amarravam, torciam um pano, faziam uma ‘’rudia’’punham na cabeça fazendo a base e sobre ela, a mala de roupa. Desciam rua abaixo e láá na Ponte do Ribeirão da Água Limpa as amigas se encontravam.
QUEM ME INFORMOU?
FOI minha querida, a Tóia da Mariinha do João Cassiano,irmã de D.Esmeralda, ela tem uma memória invejável, ela e as irmãs me contaram muito, o Quirinho até escreveu, e também muito do que sobra do que escutamos ao longo da vida. Vou juntar um pouquinho.
MAIS PROSA COM A D. NOFRA DO PÓFE:
_E as crianças, onde ficavam? _Os nenéns alguém da família cuidava, os grandinhos iam acompanhando. A Aparecida gostava de me acompanhar.
Conta pra ela,Aparecida.. . _Nossa! Era bão demais, a gente ficava tentando pegar os girinos,os lambarizinhos,alegrava jogando pedrinhas no poço, correndo naquelas beiradas. Juntava uma molecada.Era só alegria.
QUE MAIS DISSE A D. ONOFRA?
A D. NOFRA disse que cada uma tinha seu ponto, pedra de bater a roupa, espaço de estender e que a prosa rolava solta. Era muita risada também. Perguntei mais....
_E o almoço? Como faziam? _A patroa mandava,muito, com sobra até pras meninas.
Fala pra ela Aparecida...
_Eu não esqueço da comida também. A gente brincava, mas largava tudo hora que chegava o almoço. Vinha até café. Só sei que lembro e tenho saudade de brincar na água.
D. ONOFRA CONTINUOU...
_É, a meninada deve ter saudade do ribeirão. E a senhora, tem algum momento marcante? _Soninha, eu não esqueço do dia que a Dade do Rafael Menalli caiu no poço. Não sabia nadar, eu catei ela afogando já e fui arrastando, ela era maior que eu.Quase morreu.
HOJE ESSA respeitada lavadeira está acamada, meio fraca, mas a carinha boa de sempre e tenho orgulho de postar um pouquinho da vida dela, sempre bela, cuidou lindamente da família,Aparecida, Lúcia,Inês e criou os netos, sempre num asseio danado, tanto nas roupas como na casa.
POSTO feliz o retrato que o Diego da Vanja clicou pra mim na semana passada e homenagear através dela todas as outras que deixaram ir embora as sujeiras das roupas pelas águas do ribeirão que molharam por tantos anos os seus pés, suas saias e refrescaram seus rostos suados dos dias de sol, é pra mim uma honra.
E AS MINAS, NÃO TINHA?
A TÓIA disse que muitas, no quintal do Chico Rosa, do Zé Buque, haviam muitas minas e bicas onde também eram usadas pelas lavadeiras e isso é certo, até pouco tempo tinha uma descendo para o Bangalô, ali perto no Tião do Vote muitas foram aterradas.
NA HORTA de D.Dora, a mãe de D.Tita esposa do Dr.Fonseca era um tanto de mina, fizeram até um encanamento pra se servirem.A água da minas rolavam para o ribeirão.
AS LAVADEIRAS SÓ IAM PRA PONTE DO RIBEIRÃO? SERÁ?
A TÓIA disse que não, as lavadeiras usavam os melhores lugares do córrego, na Fazendinha dos Turcos, diz ela que levar a comida era um passeio e tanto, ela não esquece da Pinguela Mole do João Juca, ela balançava, dava medo, mas enchente nenhuma levava, era bem feita com arames.
NAS BEIRAS, disse ela, era meio prainhas, muitas pedras, e lá, uma correnteza fazia a festa das lavadeiras, ensaboavam, batia na pedra, esfregava, e daí seguravam firme na ponta do lençol e a correnteza esticava e lavava. Diz ela que era bonito de ver.
POR QUE A TÓIA LEMBRA TANTO DA CENA?
PORQUE ela entorna saudade, ou ia a Chica, ou ela com as irmãzinhas, levavam o almoço no Corguinho da Fazendinha dos Turcos e mais tarde levavam a merenda para a lavadeira da família, e aquilo era um passeio e tanto, aquilo era pisar nas pedrinhas, aquilo era tentar pegar os girininhos, aquilo era molhar os pezinhos numa prainha.
ONDE AS ROUPAS SECAVAM?
PENDURADAS de fora a fora nas cercas de arame da vizinhança. Quando o tempo não ajudava elas iam passeando e ajudavam a carregar de volta as roupas molhadas que pesavam muito. As lavadeiras da saudade delas era a Preta do Sô Gustavo e a Noêmia mãe do Inocêncio. As roupas secavam, só não secou a saudade da vida de criança.
E A MINHOCA DO MANOEL BERNARDES?
NADA a ver com as lavadeiras, elas apenas usavam os fundos dele, ensaboavam, esfregavam, batiam nas pedras, enxaguavam na correnteza. Não tinha barranco numa parte, então, lá nas pedras as roupas eram lavadas.
E OS PESCADORES?
ENTÃO, nos fundos da casa do Manoel Bernardes fervia de peixes, tinha barranco, perto das pedras da lavadeiras, lá era movimentado, tinha poço, era uma molecada dia inteiro, homem pescando, só que a lavação de roupas tinha ponto certo porque a água rolava mais rápido para limpar, só que o Sô Manoel via sua propriedade invadida, ficava nervoso,daí munheca, cobrava minhoca, muito pouquinho,mas, cobrava,dizia que era pra dar respeito. Ê, Manoel Bernardes, viveu muito e era querido.
AH! QUE PENA!
MINHA vontade era registrar o nome de todas lavadeiras, sei que muitas passaram anos colorindo embaixo da ponte e em muitos pontos do Corguinho de tantas saudades, mas só consegui saber de algumas, para mais, seria preciso falar com muitas famílias e para mim é impossível.
O ADEUS DAS LAVADEIRAS!
AS ÁGUAS cobriram o ribeirão e cobriram também a alegria daquele convívio diário, as risadas, a cantoria com os pés molhados, as conversas gostosas, o que ficou foi lembrança boa porque depois da inundação não tinha mais prazer, a paisagem que era só delas, desapareceu, foi embora o almoço nas pedras, os peixinhos na água clarinha, fim do ''Ribeirão da Água Limpa''.
NA Cidade Nova, já era com água encanada, não existia mais a liberdade nas pedras, a fartura do córrego, das bicas, das minas. As águas cobriram os sons da molecada que passava o dia nadando, mergulhando, pendurando em cipós, pescando. Que pena!
A ALEGRIA ACABOU?
SIM, virou saudade, mas a profissão continuou por muitos anos, lavavam nos quintais das casas, até que a modernidade acabou até com a profissão porque trouxe a máquina de lavar. Trabalho era tão difícil, as lavadeiras sustentavam suas famílias ou ajudavam muito, e eram respeitadas na cidade,muito queridas e sempre lembradas.
O NELSON ALVES DISSE...
QUE no fim da década de 50 ouviu de Maria Castorina, esposa do Sô Geraldão, uma das lavadeiras famosas, que só uma vez ficou triste porque uma de suas patroas, muito rica, só porque hora de dobrar a roupa colocou no colo o vestido novo dela, foi repreendida com arrogância por ter encostado a roupa em seu corpo. Só que isso não era o comum, eram mesmo, muito amadas, e devolviam esse amor.
A GICEUDA PROFESSORA...
FALA com muito orgulho de sua mãe lavadeira, a Graça, ela quando menina acompanhava a mãe que aprendeu o ofício com sua vó, assim mais tarde, casada, na roça, levava os birrentinhos para o Corguinho, enquanto lavava as roupas de sua família, eles bagunçavam na água. DEPOIS já na cidade, e depois da inundação,Graça lavava roupa para o Tião do Vote e Ivo Teixeira. Enquanto a mãe lavava,faziam bagunça na serralheria. Enquanto Graça lavava as roupas lá no Ivo, eram vizinhos, ela marcava bem a hora do almoço e quando Nélida chamava os fiotes para comer, entrava na fila. Tem orgulho em dizer o quanto sua mãe lavava bem.
APLAUSOS PARA AS LAVADEIRAS CITADAS E TANTAS OUTRAS!
D.Maria Maior,D. Maria do Paizé, D.Agostinha mãe do Frei Clóvis e suas filhas Maria e Luzia...
D.Hercília-mãe da Graça Fidélis, D.Augusta Vassoureiro, D.Loza- lavadeira no Tião Arão...
D.Sebastiana Jorgina,D.Corina, D.Preta do Gustavo,D. Noêmia mãe do Inocêncio...
Sá Maria Rita, D.Catarina, D.Oscarina irmã da Chica, D.Maria Castorina esposa do Geraldão...
D.Aurora Flor de Maria,D. Maria do Carmo Brito, D.Maria Diolina, D.Batista, D.Alzira...
D.Tereza do Pé de Pato,D.Paulina,D.Luzia do Luiz Padeiro, D.Geralda, D.Maria do Silvino...
D.Loreta da Maria Joana casada com o Tantoin Caetano,Tereza irmã da Diola,D.Conça...
Lena que trabalhava para Dr.Fonseca, também lavava, D.Quinha,todas estimadas e a estrevistada, doce de D.Nofra do Pófe, a mais velha, 94 anos.
FALA MAIS QUE LAVADEIRA QUANDO PERDE O SABÃO...
FAcidéia, como dizia o Derfho Castro... Era um tanto de lavadeira proseando, e na hora que perdia o sabão na água corrente, misturado nas pedras ou nas roupas, facidéia o ti ti ti que virava. Tinha de achar, que correria, que engraçado,que falatório!
AJUDA AÍ...
CASO você lendo, lembre de alguma, caso tenha o carinho de perguntar para sua família, registre no comentário, o nome e também alguma lembrança para constarem em nossa postagem.
SABE QUEM AGRADECE?
A HISTÓRIA de nossa terra, como sempre escrevo, tenho orgulho de fazer esses registros enquanto é tempo, enquanto vivem quem tem essas lembranças, daqui a alguns anos não teremos mais lembranças, as memórias de quem viveu na Cidade Velha.
UMA BONITA LEMBRANÇA DAS LAVADEIRAS DEIXO PARA...
WALQUIRES TIBÚRCIO FINALIZAR
‘’NOSSA casa era em frente ao Bangalô, então residencia do Dr. José Duque do Amaral Filho.Tinha um quintal enorme e lá no fundo corria uma bica dágua que brotava nas cercanias da Rua Nova. Era nessa bica que duas vezes por semana a Sá Maria Diolina lavava as roupas nossas. Preta, muito magra, sempre sorrindo, chegava cedo, fazia uma grande trouxa, punha na cabeça e ia para a bica. Esfregava, fervia, batia na tábua do batedor, estendia, deixava quarando, depois de seca, já a tarde recolhia tudo, nova trouxa na cabeça, hora de ir embora.
PASSAVA na cozinha, proseava com minha mãe, assentava num canto com o prato de comida no colo depois de beber, como sempre fazia, aos golinhos, boa dose da branquinha que sempre tinha lá em casa. Bebia um cafezinho e trouxa na cabeça lá ia pra sua moradia, lá perto da rua do Buracão. No outro dia, roupa passada, de novo a trouxa na cabeça vinha entregar o fardo e receber as poucas moedas do seu trabalho.
Uma vida assim merece uma homenagem:
LAVADEIRA
Nunca esqueço a esquelética Sá Maria, Foi a mais pontual das lavadeiras; Conseguia passar noites inteiras, Engomando os lençóis da freguesia. Da sua carunchosa moradia Vinha um ranger eivado de canseiras; Não sei se era um ruído de madeiras, Ou se era o seu corpo que rangia. Vivendo entre camisas engomadas, Eu lembro suas mãos tão calejadas. E detesto a camisa em que me encerro. Se me saísse a alma da carcaça, Eu lha daria e lhe diria passa, Passa, Sá Maria essa alma a ferro.’’
(Os estudantes de Guapé precisam ler sobre as ''Lavadeiras do Ribeirão da Água Limpa'')









