ESPELHO MEU
NINGUÉM quer morrer, então, o jeito é envelhecer para viver, não há outra maneira. A velhice traz experiência, sabedoria, sim, verdade, e eu vou fazer com isso, o quê? Não vou mais voltar no tempo para fazer de outra maneira, tentar acertar o que deu errado...
OS caminhos por onde andei procurando acertar meus passos, tenho certeza, não caminharei mais. As pessoas que encontrei nesses caminhos, certamente estão também contando os anos que restam e com experiências de monte sem poder usá-las.
GANHAR experiência é vantagem. Grande vantagem! Eu, hein? Queria ganhar pelo menos saúde para viver minha solidão, a contagem regressiva. ´Preciso de audição para viver a emoção de uma bonita música, preciso de voz para cantar,preciso de visão para ver os pores do sol.
QUEM não tem ilusão que aceite as manchas na pele, as tantas rugas, pálpebras caída, prega ao lado da boca, as doenças próprias desse tempo, a fraqueza das pernas.O que chega junto com a velhice nos impede de sair por aí pelo menos contando as experiências adquiridas, portanto, de que servem as tão faladas experiências?
PIOR é saber do pouco tempo que resta, isso dá agonia e pressa, e sem jeito de apressar o passo. Tudo vira despedida. É na tal velhice que conhecemos todas as saudades. Que eu consiga rir de lembranças enquanto me lembro delas, posso ficar também esquecida.
O RESTO da mocidade me escapa e a temida velhice me espreita, então, que venha, não quero morrer!
RETRATO Cecília Meireles Eu não tinha este rosto de hoje, assim calmo, assim triste, assim magro, nem estes olhos tão vazios, nem o lábio amargo. Eu não tinha estas mãos sem força, tão paradas e frias e mortas; eu não tinha este coração que nem se mostra. Eu não dei por esta mudança, tão simples, tão certa, tão fácil: - Em que espelho ficou perdida a minha face?









