Elisa carvalho inaugura lindamente esse espaço com seu texto.Ela faz parte da equipe,é filha de D.Ivolina e Sr.Antônio da Emater.Arrebenta aí,moça,você é talentosa.
O QUE AS PALAVRAS FAZEM COM AS PESSOAS? OU... O QUE ELAS FAZEM COM AS PALAVRAS? Elisa Teixeira Carvalho Guimarães Pode ser que a moçada de hoje prefira ‘deletar’ o que vai ler, mas é válido que chegue até o fim. Uma vez, depois de uma discussão desgastante sobre um adolescente que não sabia qual o limite de conviver em sociedade, pensei sobre a importância que as palavras têm na vida do ser humano e revivi minha infância e juventude, nas décadas de 80 e 90 em Guapé. Neste período meu acesso à leitura já era grande, a Biblioteca Municipal ficava no caminho da Escola Estadual Lauro Correa do Amaral onde eu estudava e considerava os livros e o que neles continha como algo sagrado. A leitura era algo promissor, e olha que ainda não imaginava me encantar com os prazeres de ler Lya Luft e Clarice Lispector. O que eu sabia apenas é que os livros eram a minha diversão e iniciava sempre as minhas leituras às escondidas, nas aulas de exatas, que eram o meu terror. Eu, como fruto da geração de 80 sabia não só o que os livros me ensinavam, sabia também, e muito bem, o que os pais queriam nos ensinar: havia limites para as nossas atitudes e tínhamos que segui-los. Durante a noite meu pai me pedia que desligasse a luz do quarto e fosse logo dormir, que o livro poderia esperar para ser lido no outro dia. Embora não concordasse, eu não discutia, obedecia e eu era, nesta madrugada de luz apagada, a protagonista do conto Felicidade Clandestina de Clarice Lispector. Hoje eu compreendo a força que as palavras têm na vida da gente porque eu não deletei o que aprendi, como a maioria da meninada de hoje prefere fazer. Observo que os valores familiares estão cada vez mais distantes da geração atual e isso não só os livros nos ensinam, a convivência familiar também tem este papel. Afinal, por que as pessoas não conversam com a mesma freqüência de antes? A vida mudou tanto assim para que as palavras ficassem escassas? O que as famílias tem feito com a comunicação? As palavras têm sido deletadas? Ah... não se esqueçam da força, do poder que elas possuem nas pessoas: o poder de instruir, de convencer, de acalmar, de satisfazer... Agora entendo que, para aquele adolescente assunto da discussão, faltavam mais palavras. Talvez ele não as tivesse em casa e nem procurou encontrá-las nos livros. Ele entenderia a necessidade de conviver em sociedade, o que às vezes requer o pronunciamento e outras vezes o silêncio, se naquele momento ele pensasse como Lya Luft, ao afirmar que ... “ Vivemos nesses enganos, nesses desencontros, nesse desperdício de felicidade e afeto. No sofrimento desnecessário, quando silenciamos em lugar de esclarecer. "Agora não quero falar nisso", dizemos. Mas a gente devia falar exatamente disso que nos assusta e nos afasta do outro. O silêncio, quando devíamos falar, ou a palavra errada, quando devíamos ter ficado quietos: instauram-se, assim, o drama da convivência e a dificuldade do amor. Sou dos que optam pela palavra sempre que é possível. Olho no olho, às vezes mão na mão ou mão no ombro: vem cá, vamos conversar? Nem sempre é possível. Mas, em geral, é melhor do que o silêncio crispado e as palavras varridas para baixo do tapete. “ ...



