A ROMARIA EM TRÊS TEMPOS NOS COMENTÁRIOS DE DR.SEBASTIÃO FERREIRA DA SILVA
O nosso Tião da Mariquita sempre acrescenta aqui nas postagens,passagens de sua interessante vida e sobre a festa da Jacutinga fez seu comentário de quando a festa era só de fé:
''Mais uma romaria em louvor da mãe aparecida. Como Guapeense, cristão e devoto que sou, participei de muitas. Três romarias me fez histórias. Foram mais marcantes. 1) A primeira em 1958. As pessoas se reuniam e se organizavam ao acaso. Descia pela Rua 3 de Fevereiro, passava pela Igreja, cadeia, correio, posto do Chico Martins, Armazém do Fernandinho, onde comprava mais matulas (merendas), passava a ponte e subia o morro, já rezando o primeiro rosário (conjunto de 3 terços) e afinando a garganta para cantar as músicas em louvor a Senhora Aparecida nos caminhos. No meu grupo, que saiu às 7 horas, lembro que reunia a Cidinha e a Tereza do Parula, levando uma criança, parece que era a Fia do Parula ou Fia do Lazinho do sô Taide ou do Cartório. Presente também duas filhas do Juca: a Rejane e a Regina, Paulo Titó e Sano Olímpio e muitos outros. A Cidinha tirava (comandava) o Terço (Rosário). No início de cada mistério, uma cantiga em louvor a Virgem Aparecida. O time acima era ou é muito bão de voz: forte e afinada. Cantava-se em dueto (primeira e segunda voz). A Tereza do Parula levava a imagem de Aparecida. O Grupo foi aumentando pela estrada empoeirada. Chegamos quando rezávamos o terceiro Rosário (nove terços), A cantoria foi aprimorando e se soltando cada vez mais pelas estradas. Chegamos pelas 11 horas em procissão e cantando a Salve Rainha. O Povo se ajoelhou na passagem de nossa Santa imagem. A Antiga Igreja da Jacutinga, estava acolhedora como sempre. Aí teve a missa. Muitos chapeus empoeirados. Rezas e cantorias com muito Fervor e prece. O Padre João Oenning, ora sério, ora brincalhão. Após a missa, o povo sentado sob as árvores, trocando conversas, comendo matulas (biscoito, pão de queijo, bolo, rapadura) e tomando guaraná.
2) Outra Romaria, em 1963. Fomos de balsa. Coube todos os romeiros. Maioria dos guapeenses já tinha se mudado. A represa tinha inundado nossas terras. A organização foi feita pelo João Barbosa (João Venância), forte líder comunitário e religioso. A saida foi na escadaria do correio, ponto de atracação da balsa. Fui com minha mãe: Mariquita. Um pequeno altar abrigava a Imagem de Aparecida no centro da Balsa. As rezas e cantorias eram carentes de alegria e de entusiasmos. Alguns romeiros, durante a viagem, falavam de suas casas e plantas que estava lá em baixo das águas por onde navegávamos. Nas margens da represa via-se sinais de destruição, ruínas de casas e árvores secando. A viagem durou cerca de duas horas, descendo direção ao Rio Grande, indo até rumo do Mundo Novo e virou à esquerda e foi até um morro pertinho da Jacutinga velha. Fomos em processão até a Igreja Velha. A missa, celebrada pelo padre João, foi curta. Ele havia chegado do sul do Paraná e passava informações das terras, como alternativa, para quem precisasse e quisesse se mudar para lá. Parece que foi a última romaria para a igreja velha. Apesar dos gritos de viva à Virgem Aparecida e a outros Santos, havia pouco brilho. Após a missa, lembro-me dos romeiros entrando na balsa, viagem de retorno bastante silente. Quando se falava o assunto predominante era único: o que ficou debaixo das águas. Olhares voltados ao passado. Era um grupo caracterizado pelo ausência de horizontes futuros.
3) A terceira romaria, que ponho em destaque, foi sábado passado: 15/8/2015. Muita gente, vindo de vários estados, cidades e de outras comunidades locais. Estrada reformada. Pouca poeira, já que houve carro pipa jogando água durante toda a semana. Muitos carros percorrendo a estradas. Uns indo e outros voltando, comprovando a teoria de que o homem, diferente dos animais, não consegue ser feliz onde se encontra. Pequenos grupos familiares fazendo o trajeto a pé. Baixo percentual. Não ouvi cantoria, nem reza em voz alta. Também não vi imagem pela estrada. Saí de Guapé às 10;30 horas e chegue antes das 11 horas. Entrei de carro e tive retornar e estacionar lá em baixo depois do cafezal. Os espaços comunitários, cheios de barracas de vendedores, carros, instrumentos de sons e muito barulho. A praça linda, verdejante, com suas árvores frondosas, semi esmagada e tomada pelo comércio ambulante. Eu e meu grupo tivemos dificuldades em chegar até a igreja. Fomos cercados várias vezes pelos vendedores ambulantes, até nas portas da igreja e pelos grupos das latinhas de cerveja. Parece que a moda é transitar com uma lata na mão. A igreja, ampliada e em reforma, está ficando ótima, cheinha de gente até nos pátios, onde religiosos e ambulantes se misturavam. Assim, os romeiros pareciam poucos concentrados nos atos e na fé. Nosso padre, celebrante da missa de meio dia, teve de usar profundos conhecimentos de sociologia, comunicação social e até um bailado eclesiástico para conseguir o "relicare" com a Santa e com Deus. Sobressaiu um sermão brilhante, rico em conhecimentos de sociologia, antropologia, religião e das famílias, sempre direcionado para a Santa e para o Cristo. Missa sobre programação temporal: ora para início e para o término. Costume e ansiedade de nossa época ditado pela TV. Apesar dos barulhos observa-se que a fé e a devoção à Nossa Senhora Aparecida, continua forte, sólida e piedosa, com muitas orações e "vivas". Após a missa, a multidão se encolhia na praça e tentava encontrar amigos, parentes e conhecidos que foram com a chegada das águas e retornavam com seus netos, para a festa. Quanto conseguia vê-los era difícil aproximar-se e quando se aproximava era difícil o diálogo, em meio a tanto barulho, gritos dos vendedores e das latinhas de cervejas aditivadas ou não. Creio que nossa romaria precisa ser repensada e redirecionada, em favor da fé, do belo exuberante natural da praça e da Igreja e de nossa Senhora Aparecida. A Santa, a beleza local e o povo merece.




