(A PROSA ABAIXO FOI EM 1914)
ARI CORREA! ÊTA MENINO LEVADO DAS BRECAS!
ELE é mesmo da pá virada.Taí olhando a casa de seu pai na esquina,na sua esquina,ao lado de sua casa,a já que foi batizada de ''ESQUINA DO ARI''e isso sem falar que dos banquinhos do calçadão, um também virou ''BANQUINHO DO ARI'', esse Ari alegrinho que adora pegadinhas, piadinhas indecentes e que adora o mal feito.
MAIS de 90 anos teve de janela e só procurava a alegria, as moças bonitas, as amizades.Tinha o lugar em casa para jogar baralho todas as manhãs com sua freguesia costumeira, era amado na cidade, amado pelos filhos e cuidado pela Mariza, uma filha carinhosa, atenciosa e que trazia o pai no maior cortado já que era teimoso e levado das brecas.
NAS tardezinhas pegava sua bengalinha e batia a bunda naquele banquinho do canteiro da Avenida Brasil.Parecia o banco da "Praça é Nossa" já que cada hora tinha uma pessoa passando e sentando e proseando. Ê, cabecinha boa era a do Ari.Lembrava até do que não precisava.
A PAIXÃO dele era dança,aí entrava no Clube dos 70, encostava a bengalinha e dançava forró até de madrugadinha e de preferência com mulheres jovens e bonitas.Participava de tudo,falava discurso, desfilava de terno,desfilava de mulher,o que vinha ele traçava.Nos Bailes da Terceira Idade, nas apresentações que aconteciam toda meia noite, fez muita gente rir.E tem causo,viu?Como tem!
SEMPRE, desde menino acordava muito cedo,era costume trabalhar,levantava no escuro pra moer cana, fazer rapadura...Trabalhou de carreiro e até hoje gosta de carro de boi, foi caminhoneiro no Rio,São Paulo,Paraná, Goiás e trazia muita carga, Guapé não tinha armazém.Quem tinha caminhão era ele, o Zico da Lica, o Dico, o Lazinho,o Tietié.Carregavam muitas mudanças.
DAÍ FUI PERGUNTANDO...
-Ari, a casa que era de seus pais foi derrubada.Deu tristeza? _Demais da conta.A gente reunia nela,juntava os irmão tudo, os fios, nóis era em onze. Rodorfinho, Zizita, Walter, Zé Correa,Lauro,Tereza,Maria, Zélia,Carlos,Francisco e eu.Minha mãe ainda perdeu três.
_O senhor disse que moravam na roça? _Ô,tempo bão!Sabe a casa do Juvenarinho,aquela da subida que tá caindo?Então,era nossa.Meu umbigo tá enterrado lá.
_Só o seu umbigo? _A umbigaiada nossa tá tudo lá.Toda vez que eu passo lá eu lembro, 11 umbigo enterrado.
_O senhor certamente nasceu de parteira.Era a famosa Sá Dionísia? _Não,a nossa parteira era mais antiga,era a mãe da Sá Dionísia, a Sá Marciana.Ela rancava menino nessa redondeza tudo.
_Ela ficava esperando a hora do nenen apontar a carinha? _Era assim, meu pai buscava a parteira em casa,eu memo fui a cavalo com ele atrás dela,mas ela não montava no lombo do cavalo de jeito maneira, fazia o caminho a pé andando atrás do cavalo.
_Que mais o senhor lembra? _Lembro dela mijano, acredita? Que trem trapaiado! Cada costume! Dava uma virada,arredava uma perna da ôta, dava de puxá a saia pa frente pa riba do juêio pa num moiá e chuáááá...chuá...Mijava, baixava a saia e seguia de novo com coisa que num era nada. As muié no tempo antigo num gostava muito de carcinha. Usava pouco.
_Era uma festa quando nascia mais um? _Bão demais da conta.O mió era a sopa de farinha com frango e cardinho.Que bondade! Meu pai separava 6 frangão e deixava engordá.Nóis era menino,num queria nem sabê, nóis queria era da sopa.E a canjica? Era todo dia pa dá mais leite e nóis entrava na canjica.Quarenta dia de resguardo,quarenta dia na canja e na canjica. Ô, bondade!
_Então a Sá Marciana tinha trabalho demais? _Nooooossa! Só lá em casa foi 15 que ela ajudou a tirar.Acho que foi 90 frango só em sopa.Ela rodava esse Guapé inteiro,cada casa tinha na base de 8 a 15 fio.Acho que era assim, o resguardo era 40 dia,se acabava meia noite, meia noite e vinte já tinha sementinha pra brotá de novo.Dipois miorô,mais tarde apareceu o rádio e distraiu o pessoal e os parto foi minguano.
_E as brincadeiras,Ari? _Trabaiava, brincava tamém, era em roda da casa, no mato...Sabe a nossa casa? Era de assoalho e tinha umas greta e se chegava visita mié, nóis ia pro porão e ficava oiano por baixo das saia das muié. Eu, o Walter, o Rodorfinho, o Zé...Num esqueço disso.
_Saudade de tudo,Ari? _De tudo.Essa vida é muito boa.De irmão agora é só eu, a Maria e o Francisco que é mais novo.Tudo tá bão. Esse Guapé é muito bão. Essa esquina é muito boa.Esse meu banquinho é muito bão. Esses meus fio é bão demais.Dançá é mió ainda.Eu num tenho que reclamá da vida,não.
_E a D.Aparecida? _Então,tive a Aparecida,uma muié muito boa,cozinhava bem que só vendo, morreu nova,me deixou os fio, Marina,Mariza,Marília,Élbio e Geralda. Agradeço a vida que eu tenho, ô,vida danada de boa! E agora viúvo, ver as muié nos baile,dançá garradinho, vai cê bão pra lá, penduro nelas e mando a bengala pra lá.
_Ah! É verdade que a Mariza te colocou de castigo depois de um baile? _Pió que é verdade.Eu recebo minha aposentadoria e gosto de encher o bolso,levar tudo e eu teimo,aí enchi o bolso,fui, bebi uns mé demais porque carrego uma garrafinha, dancei, tinha três lá que faltava me carregar e foi isso até acabar o forró e aí o trem ficou feio pra mim.
_Que aconteceu? _Quando cheguei em casa...Cadê o bolo de dinheiro? Evaporou. As desgramenta me roubaram e eu achando que tava com tudo no balaio. Ê,mas a Marisa ficou braba demais, mas braba memo, quase apanhei. Cheguei tontinho.
_Mas e o castigo, foi verdade? _Se foi. Ela me deixou um mês de castigo, sem pegar em dinheiro.Nem numa pratinha.Ela acha que é minha mãe.Aí eu deixo ela pensar.
_E pra sair do castigo? _Foi assim, a Geralda chegou de Ribeirão Preto,eu contei que tava de castigo, ela ficou com dó e combinou com a Mariza de me dar uma chance, assim que eu saí do castigo.Até pra chupar picolé eu tinha de pedir.
_E agora,Ari? _Uai,desse dia em diante só deixa eu sair com um tiquinho de dinheiro,só pra gastar no dia.Diz ela que fiquei tonto e uma das muié lá enfiou a mão no meu borso e tirou.Nem vi, tava rindo atoa. Ah!Nem importei,eu tava com três bonitona.Podia roubar até eu.
_Ari,adorei seus causos. _Eu contei pouco,tenho é muito.
E VIVA A VIDA E VIVA TUDO! E VIVA O ARI QUE NUNCA FOI BARRIGUDO.









