A FORÇA DAS ÁGUAS DE FURNAS / GUAPÉ
A HISTÓRIA MOLHADA DA FAMÍLIA DO JOAQUIM TEIXEIRINHA
OS TEIXEIRINHAS quando saíram de Guapé foram empurrados pelas Águas De Furnas. A vida deles era alegre, uma família numerosa criada numa bela fazenda banhada pelo Rio Grande, bem pertinho da Ponte Melo Viana, há 10 minutos da cidade. Eram onze filhos felizes naquela roça e a certeza dos pais de que lá viveriam sempre.
COMO descrever um pouco da vida deles? Claro, um pouco, bem pouco, pois, nada escrito terá o tamanho da história vivida por essa família antes e depois das águas. Quem sentiu a grande perda foi o casal e os filhos, Lia, Malvina, Benvinda, Aparecida, Rosa, Sabina, Mariana, João, Zequinha, Dorcelino, Antônio, e Maria, a neta que viu a mãe Sabina bater asas ainda moça e foi assim que Mariana tia fez as vezes de mãe.
MUITA ÁGUA rolou, da família, a Rosa formosa casou e foi morar em São Paulo, Benvinda em Pinhuí, Lia na Jacutinga,o João tem morada de lá da represa,o Dorcelino com o seu pedacinho do que sobrou, ampliou ao longo da vida e tem hoje sua fazenda grudada no arraial Araúna, foi um dos formandos da primeira turma de oitava série do Ginásio São Francisco. Maria, a neta professora, continua na casa comprada anos depois. Dos filhos, Rosa, Sabina, Benvinda, Malvina, Antônio, Mariana, Aparecida, Zequinha, já viraram anjos.
SEMPRE ouvi os causos que nossa mamãe contava, conviveu muito com a família, era sobrinha de D.Maria, estava sempre por perto, da infância a mocidade, inclusive, ela e a Lia, eram muito unidas, além de primas eram muito amigas, se davam tão bem que se apaixonaram pelo mesmo moço, esse moço, no caso, era meu pai Itamar. Ele namorou a Lia muitos anos, desistiram e minha mamãe pegou o galã da sanfona. A Lia casou e mudou e a mamãe casou e ficou. No Araúna.
AQUELA vida alegre da fazenda, movimentada, gente trabalhando, gente visitando, gente negociando numa casa enorme, numa paisagem de bica d’água, monjolo, engenho, curral, chiqueiro, galinheiro, arado, carro de boi, muito gado, lá onde saíam fornadas de quitanda, tachos e mais tachos de doces, muita fartura, muita esperança, ficou tudo na lembrança.
COMO A FAMÍLIA acreditar que aquela fazenda, aquela casa tão amada seria engolida pelas águas? Impossível. Muito triste. Resistiram a todas as notícias, até que de repente chegaram as águas sujas, e assim,então, nelas, misturou-se a esperança, a alegria de viver, enfim, tudo retratado nas águas turvas. O prejuízo do Joaquim Teixeirinha foi gigante e de tudo que tinha recebeu dinheiro que deu para comprar uma chácara em Passos, bem ao lado da Estação Ferroviária, a nova morada da família do Teixeirinha.
UMA BAITA dor. Negação total. O bondoso Teixeirinha não queria mesmo por nada abandonar suas terras, sua casa, enfim, todos queriam prolongar a despedida fatal, e mais um dia, e mais uma noite, e mais um pouquinho, e foram vivendo suas despedidas angustiantes, silenciosas e doídas. Insistiram tanto, prolongaram tanto a despedida que quando se deram conta, as águas estavam já tragando a ponte.
CHORO, desespero, revolta, correria com tudo, foi assim e com os mais tristes sentimentos é que juntaram roupas, objetos, móveis, tudo que não tinha tanta importância pra eles naquele momento, era pouco pelo tanto que ficava, e assim, também molhados e de muitas lágrimas, lotaram o caminhão e atravessaram a ponte com a metade dos pneus já dentro d’água.
O ZEQUINHA levou antes da mudança um pouco do gado, já não havia mais pastagens, na volta, encheu o jeep de irmãos e foi antes do caminhão de mudança dirigido pelo Tião Sabino,o caminhão dos Martins,o que levou levou o casal na carroceria, já alguns parentes que ficaram, sem tempo de correr, foram tirados de helicóptero, é que nas baixadas as águas chegavam depressa, o que demorou a chegar foi a aceitação da tragédia anunciada.
OS duzentos alqueires que sobraram,os filhos casados, pelo que sei, continuaram nas casas, as poucas que sobraram, já que a fazenda tinha mais de vinte casas nos arredores e como tantas outras em nossa região, ficaram submersas, e os despejados de Furnas, a maioria não tinha abrigo, nem rumo tinha. Para os Teixeirinhas o caminho que decidiram foi pela estrada que ainda esperava, pouco antes da ponte.
OS TEIXEIRINHAS não levaram tudo, a não ser as suas dores, o sofrimento dilacerante, o resto que tanto amavam ficou no silêncio, e o resto era tudo que foi na lembrança, o resto virou só saudade, o resto foi no coração em forma de amargura e desencanto, o resto foi no último olhar de despedida, e assim, atravessaram a Ponte Melo Viana pela última vez.
CADÊ as águas claras do amado Rio Grande? Seus olhos já não viram mais o rio de tantas boas histórias, o rio bonito vizinho dos Texeirinhas. A água cobriu o seu leito e era suja, trazia dores de outros lugares, e o caminhão foi pela estrada triste, levando a mudança de uma família triste que deixava para trás sua paisagem triste. O destino para chorar suas dores foi Passos.
O TEMPO, esse passou, eles, foram levando a vida nessa chácara, os três mais jovens, carregavam a ilusão da mocidade, ainda se encantaram pela cidade, o Zequinha ainda aproveitou o auge de sua mocidade em Passos,mas,Joaquim Teixeirinha e sua bondosa Maria, e os filhos mais velhos, era só saudade e muito doída.
ANOS passaram e o amor por Guapé falou mais alto, não suportaram a distância, a saudade vendeu a chácara, a saudade encheu outro caminhão, de desilusão, de emoção, bem mais leve de dor, porém, vazio de esperança. E os Teixeirinhas voltaram. Na Cidade Nova compraram uma das casas contruídas por Furnas e nela viveram o resto de suas vidas recordando a casa, as terras da ponte.
A SÁ MARIA Teixeirinha era um doce de ser humano, falava pouco, bem baixinho,vestia saia longa,um pouquinho franzida, combinação por baixo, uma veste antiga, paletozinho curto de manga, se saía, o cabelo era esticado e de coquinho, aqueles coquinhos antigos que as vós não usam mais, dentro de casa usava um pano sempre branquinho amarrado na cabeça, daqueles que as mulheres usavam para assar quitandas. Sua figura de paninho é a que guardo. Suas roupas eram tão limpinhas! Gracinha era ela.
JOAQUIM Teixeirinha era uma figurinha das melhores, digo figurinha porque era miúdo, baixo, muito sério, de uma humildade de dar gosto. Usava camisa de manga comprida abotoada na gola e tinha o interessante costume de amarrar a correia fora das presilhas, de jeito que sobrava calça acima da correia. Tinha o Sayhum da farmácia como médico e amigo, e só andava a pé pela rua comprida que liga a Cidade Velha a Cidade Nova, sempre, carona, só aceitava do Dr. Sayhum, mais ninguém, nem adiantava oferecer. Foi muito trabalhador, honesto e muito querido.Criou uma admirável e numerosa família. Era curvadinho, de certo, um pouco pelo peso de suas dores.
AH! TIA MARIA, era graciosa falando, que conversinha ajeitada! Lembro-me bem de suas prosas contando de sonhos que tinha dormindo e uma foi desse jeitinho:
_ Quase toda noite é isso, sonho que tô na nossa casa da ponte trabaiano e é uma labuta danada. _A senhora sonha a noite inteira? _Acho que é, porque eu durmo duma banda só. _A senhora lembra de todo o sonho? _Lembro, mas eu trabaio tanto e acordo cansada que só veno. _No que a senhora trabalha? _ Carrego lenha e graveto po fogão e lido nas panela de comida, precisa ver a fundura e é um tamanhão. Tem noite que eu mato porco e fico na labuta cuncoisa que é de verdade. _Toda noite a senhora sonha? _Não tem fim,é dormir e vem o sonho lá na roça, mas eu faço tudo que nóis fazia, é lavano roupa agachada na bica d’água, é ralano mandioca pa fazê porvio e farinha, é massano quitanda e limpano forno... _Mas o corpo da senhora dói? _Depende do serviço, onte eu sonhei e soquei arroz no pilão, mas era arroz que num cabava mais, meus braço doeu o dinterinho, de certo de tanto esforçá.
A PROSA foi mesmo assim, contei do jeitinho que ouvi porque nunca esqueci.
É, ESCREVI um pouquinho da história que conheço dessa família Teixeirinha, é o que sei para contar, imaginem, então, cada um deles contando suas lembranças em detalhes e sentimentos.
ESCREVO registros assim para que jovens sintam, conheçam um pouquinho dos dramas causados pelas Águas De Furnas.Contar da inundação é preciso, só que para mim, esses retalhos do sofrimento causado pelas águas é primordial. Foi cada retalho como esse que emendou essa imensa colcha de dores, de cores tristes, a que cobriu tanto.
UM salve aos Teixeirinhas! Um salve a quem visitou aquela fazenda! O abraço do ‘’Bão De Prosa'' que tem a honra de escrever sobre nossa História e agora, um pouquinho da História dos Teixeirinhas.
(Essas são as fotos que consegui, graças a Edilene, neta.Obrigada.)









